Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 43 – O que você quer saber primeiro?

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Ainda não conhece Golem? Então comece acessando http://www.bearnerd.com.br/golem.

 


Como no dia em que chegaram ao Rio, Aidan mantinha as chamas acesas enquanto se agarrava às costas de Abeô. O africano mantinha o corpo paralelo ao fundo do oceano, usando braços e pernas para impulsionar o corpo, com toda força, para onde o ruivo apontasse. Já faziam isso há mais ou menos três horas, mas Abeô não conseguia deixar de sentir-se exultante. Sim, estavam novamente fugindo. Sim, ainda havia muito que não entendia na história de Aidan, incluindo sua morte em dois meses e os inimigos o rastrearem a partir de sua excitação. Mesmo assim, estavam abraçados. Sentia o calor, a nudez e os pelos do ruivo em suas costas. E o melhor: agora sem culpa. Pelo contrário, havia aquela alegria boba ao pensar que Aidan se sentia do mesmo jeito que ele. Ainda que só fosse durar dois meses.

Em dado momento, quando a superfície da água estava uns três metros acima deles, o ruivo sussurrou:

— <<Espere aqui um pouco. Vou olhar lá em cima e, se estiver tudo bem, caminhamos até a praia. Se alguém estiver observando, vamos ter que nadar, ok?>>

O ruivo se soltou e apagou as chamas. Subiu até poder respirar e, após alguns instantes, reacendeu  suas labaredas e afundou, imediatamente, na água.

— <<Tudo parece tranquilo lá em cima, Abeô. Acho que podemos sair da água com nossas capacidades quânticas ativadas.>>

As chamas ao redor do africano já tinham se apagado. O piche assumia aquela textura rígida, o que lhe dava aquela sensação de fraqueza e tontura. Felizmente, após três passos em direção à praia, Aidan voltou-se e estendeu-lhe a mão:

— <<Vamos?>>

Assim, de mãos dadas, os dois caminharam. Abeô não tirava os olhos do ruivo, decorando cada tatuagem, cada pelinho. Levou um pequeno susto quando Aidan murmurou, olhos fixos na praia:

— <<Eu não acreditava em amor à primeira vista.>>

Um enxame de pensamentos inundou o cérebro do africano. Não fazia a menor ideia do que viria a seguir e, nos próximos minutos, não teria qualquer possibilidade de responder. Aparentemente indiferente, o ruivo continuou:

— <<Mas alguma coisa me atingiu com muita força quando vi você naquela madrugada em Manaus. Eu simplesmente não conseguia acreditar.>>

Caminharam mais um bocado em silêncio, Abeô com o rosto voltado para Aidan, e este para frente, pensativo. Só alguns passos depois ele continuou:

— <<De repente parecia que eu tinha sonhado com você, com cada traço seu, a vida toda. Até o seu jeito de olhar, de se mexer. Eu quase caí de joelhos e chorei, porque vi, nos seus olhos, que você também gostava de mim.>>

O africano não podia falar, mas puxou, de leve, a mão do ruivo para os lábios, beijando-a. Aquilo fez o tatuado encará-lo alguns instantes, um sorriso triste nos lábios, antes de continuar:

— <<Mas eu precisava me afastar, o mais rápido possível. É uma ironia muito cruel a gente se conhecer assim, quando me resta tão pouco tempo…>>

Faltava menos de um metro para a cabeça de Abeô emergir. Ele não prestava atenção a isso, entretanto. Tinha a nítida impressão de que, se não estivesse cercado pelas chamas, Aidan teria lágrimas no rosto. Principalmente quando, após um discreto tremor nos lábios, o ruivo continuou:

— <<Mais ainda agora que descobri que os nossos inimigos me rastreiam através da minha excitação. Quer dizer, eles perseguiriam a você e sua irmã apenas por serem autônomos quânticos, mas a minha briga com eles é muito mais antiga, e envolve muito mais do que você imagina. Eu tinha… Ainda tenho esperanças de que vocês dois escapem e tenham uma vida tranquila antes que tudo acabe…>>

Abeô já tinha a cabeça fora da água. Ficou na dúvida se deveria ou não recolher o piche. Sem o líquido negro conseguiria responder, mas também deixaria de ouvir o que o ruivo falasse embaixo da água. Resolveu esperar um pouco mais, até que  Aidan disse:

— <<O que quero dizer é que eu não sou o cara para você gostar. Sei que fui egoísta ficando perto de você esse tempo todo, mas isso coloca você e sua irmã em risco. Então, acho que depois que sua irmã chegar é melhor eu…>>

Rapidamente, o africano soltou-se do ruivo e recolheu o piche, falando apressado:

— <<Nós não vamos voltar a essa discussão, Aidan! Eu já disse que não é escolha sua, que…>>

O tatuado apagou as chamas e deixou o corpo subir até a cabeça ficar fora da água. Aparentemente, compreendeu a última frase:

— <<Eu sei que não é escolha minha, gigantão, mas…>>

— <<Se fosse eu que estivesse morrendo, se fosse eu o grande inimigo dos encouraçados, se fosse eu que eles rastreassem, se fosse eu que te pedisse para você se afastar… você aceitaria?>>

Aidan não respondeu de imediato. Eram nítidas as lágrimas no rosto dele, misturando-se ao oceano. Pelo menos até ele dizer:

— <<Sim…>> – a voz falhou um pouco, mas em seguida soou límpida junto com a expressão séria, dura – <<Eu iria me afastar e é isso que você deveria fazer.>>

Abeô parou onde estava, perplexo. Aquilo lhe doeu como os socos dos encouraçados sem o piche para protegê-lo. No entanto, imediatamente ele lembrou do “Sim” com a voz falhada. E sua mente, desesperada, agarrou-se àquela palavra dita com a voz embargada, repetindo o som várias e várias vezes.

— <<Você mente bem.>> – murmurou, voltando a caminhar – <<Mas ainda é um mentiroso. E mesmo que estivesse falando a verdade, a decisão ainda seria minha.>>

Foi a vez do ruivo parar. Murmurou sem olhar para o outro:

— <<É extremamente injusto você tomar uma decisão dessas sobre alguém que você mal conhece, numa luta que você nem chega perto de entender.>>

— <<Então me conte! Conte tudo!>> – respondeu o negro.

Aidan deixou escapar um longo suspiro e voltou-se para Abeô, perguntando:

— <<E o que você quer saber primeiro?>>

O africano pensou um pouco, calado. Sabia que ainda não entendia os motivos dos encouraçados, mas duvidava que fosse algo que mudasse seus sentimentos por Aidan. Por outro lado, era óbvio que o ruivo não compartilhava uma infinidade de coisas sobre si mesmo. Por isso, foi com certa ironia que ele respondeu:

— <<Pode começar dizendo quem você é de verdade, Sir Aidan McNaught.>>

O tatuado deixou escapar uma pequena risada antes de comentar:

— <<Você tinha mesmo que começar pela pergunta mais difícil. Aquela que eu não posso falar, só mostrar.>>

— <<Então mostre.>> – resmungou o negro.

— <<Agora não dá. Não podemos ficar parados aqui. E você vai ficar muito esgotado quando eu mostrar.>>

— <<Você sabe muito bem que raramente eu fico cansado.>>

— <<Acredite em mim: você vai querer dormir depois dessa. E é melhor fazer isso no carro, a caminho de Manaus.>> – disse Aidan, voltando a caminhar para a terra firme.

Os dois caminharam o que restava até a praia em silêncio. Agora que tinha apenas dois olhos, Abeô mantinha o olhar voltado para frente. Segurava as mochilas, nas costas e à frente do corpo, como se nada mais importasse. Repreendeu-se quando, já na praia, abriu a mochila com as roupas e percebeu que estavam encharcadas. Se tivesse esperado um pouco mais para recolher o piche, Aidan poderia vestir roupas secas. Ele próprio estaria seco.

O ruivo vestiu as roupas molhadas sem comentar nada. Tirou mais ou menos a areia dos pés e calçou os tênis. Soltou os cabelos, coisa que raramente fazia. Iam até pouco abaixo do ombro e quando soltos, mesmo sob a luz da lua como naquele momento, tinham um efeito hipnótico no africano. Abeô se permitiu admirá-los sem disfarçar, até Aidan prendê-los novamente no coque que costumava usar. E quando o outro caminhou para as luzes da pequena cidade próxima, o africano também se permitiu admirar a visão.

A cidade em que chegaram era pequena, bem menos imponente do que o Rio de Janeiro. Não havia nenhum grande prédio, só casas de andar térreo, grandes e bem cuidadas. Havia luzes nas janelas, inclusive com a eventual passagem de vultos. O silêncio era quase total, quebrado apenas pelo som dos grilos e sapos. E eventualmente, bem eventualmente, ouvia-se um carro ou moto passar.

Aidan caminhou até uma das casas mais bem cuidadas, com um utilitário esportivo na garagem. Tocou a campainha e esperou.

O homem que atendeu era um senhor de cabelo e barba grisalhos, que fez Abeô lembrar-se, por instantes, de Miguel. A lembrança, no entanto, durou só até a voz gravíssima do ruivo dizer, em português:

— Boa noite, desculpe o horário. Eu e meu amigo estamos numa pequena emergência.

O dono da casa ouvia tudo calado, um pouco apreensivo. Aidan pegou com o negro a mochila que continha o dinheiro e, bem devagar, abriu-a, tirando uma dúzia de pacotes de dinheiro, o que definitivamente tranquilizou o brasileiro.

— Nós precisamos comprar o seu carro, e também um smartphone com chip. Seu Ecosport é 2012, correto?

O dono da casa assentiu, surpreso. O ruivo continuou:

— Sessenta mil reais é um bom preço pelo carro e seu smartphone?

O brasileiro tossiu, engasgado. Mesmo assim, recolheu, apressado, os pacotes de dinheiro molhado. Ia entrar na casa quando o ruivo pousou a mão no ombro dele e emendou:

— Quando trouxer o smartphone, certifique-se que está desligado, ok? E, por favor, traga seu kit de ferramentas e o DUT já assinado.

Alguns minutos depois, o homem retornou com um largo sorriso no rosto. Trazia tudo que tinha sido pedido, inclusive o aparelho telefônico desligado. Aidan analisou tudo e comentou:

—- Por favor, mantenha a linha funcionando por uma semana. Depois disso, pode pegar o número de volta.

— Claro! – respondeu o homem meio abobalhado.

Abeô nunca havia entrado num carro sem se sentir apertado. Aquele, felizmente, tinha um espaço bem mais razoável para suas pernas, principalmente quando Aidan recuou o banco do passageiro o máximo possível. Também nunca tinha estado dentro de um carro com vidros escuros.

O ruivo dirigiu até um posto de gasolina fora da cidade. Estacionou num cantinho mais afastado, pegou algumas ferramentas e enfiou-se debaixo do carro. Após os dois minutos nos quais o africano tentava descobrir como abrir a porta, Aidan voltou, pegou outras ferramentas menores e, antes que Abeô percebesse, desmontou o celular quase completamente. Mexeu em alguns pontos, soltando alguns fios, ao que o negro indagou:

— <<O que você está fazendo?>>

— <<Desligando os olhos e ouvidos desse aparelho.>>

Tão rápido quanto desmontou, o ruivo colocou tudo de volta e ligou a pequena máquina. Apertou alguns lugares específicos da tela, enquanto murmurava:

— <<Estou acessando a internet… para descobrir uma rota até Manaus sem os pedágios e suas câmeras…>>

Pouco depois, desligou o aparelho e perguntou:

— <<Então… você deseja saber quem eu realmente sou.>>

Abeô assentiu e ficou alguns segundos encarando o ruivo, esperando a resposta.

Até que, sem qualquer aviso e num piscar de olhos, Aidan aplicou uma miríade de golpes no africano, do joelho à têmpora. Eram pancadas aplicadas, em sua maioria, com as pontas dos dedos, mas vigorosas e profundas, a ponto de doerem no fundo dos ossos. Por mais que tudo tenha acontecido rápido, entretanto, Abeô teve a nítida sensação que o ruivo manipulava a dor que provocava. O latejar da pancada na lateral do joelho reverberou no fêmur, e assim que atingiu o quadril veio a pancada seguinte, provocando uma onda de dor sincronizada à primeira, reforçando-a. Quando a nova onda alcançou a costela, veio outra pancada e mais outra, e mais outra, até que, quando a dor chegou à testa, Abeô tinha certeza absoluta de que sua cabeça ia explodir.

Quando os golpes cessaram, o africano sentiu, aflito, a respiração parar. O coração batendo no peito doía loucamente, mas as pancadas desaceleraram. Desaceleraram até parar.

Foi quando, já com a visão tomada pelas trevas, o africano ouviu a voz gravíssima do ruivo:

— <<Desculpa, Abeô…>> – sua voz interrompeu-se, num soluço – <<Mas o único jeito era matar você.>>

Navegação<< Golem – Capítulo 42 – Relâmpagos  ---  Golem – Capítulo 44 – Na teia >>
         

About author View all posts Author website

Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    ai… </3

%d blogueiros gostam disto: