Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 44 – Na teia

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Por um longo tempo, tudo que Abeô enxergou foram trevas. Ele não sentia mais o próprio corpo, não enxergava mais a si mesmo.  Era desesperador, como se tivesse deixado de existir. A única coisa que ainda tinha eram seus pensamentos, suas emoções, sua angústia. Até que, no meio das trevas, uma luz surgiu devagar. Primeiro ele pensou que fosse uma estrela, mas a luz, à medida que crescia, emitia finíssimos feixes que ele sentia como se o estivessem cercando por todos os lados. Foi quando o africano percebeu que, mesmo sem um corpo ou uma imagem que pudesse chamar de seus, encontrava-se numa espécie de túnel. Um túnel de luz criado por aquela estrela distante.

Foi nesse momento que outra luz surgiu à sua esquerda, bem próxima. Na verdade, era mais como uma série de clarões que tinham a forma de um Aidan tão imenso que Abeô só lhe enxergava o rosto. Mal o africano o percebeu, a imagem intermitente do Aidan gigante murmurou, aparecendo e desaparecendo a cada sílaba:

— <<Desculpa, Abeô…>> – a voz do ruivo interrompeu-se, num soluço – <<Mas o único jeito era matar você.>>

O africano desconfiava que estava morrendo, mas ouvir aquilo da boca do homem que amava era absolutamente assustador. E o pior: durante aquele silêncio, não havia qualquer imagem de Aidan, o que fazia com que Abeô sentisse uma solidão amarga, paralisante. Enquanto pensava nisso, ele sentiu que algo o puxava, devagar, em direção à estrela. E à medida em que se moveu, percebeu que saía de uma espécie de parede feita das próprias trevas. Fora dela, novamente conseguia enxergar seus braços, mãos, tronco e pernas. Entretanto, não pareciam feitos de carne e osso. Pareciam feitos de uma névoa brilhante e transparente, mais ou menos como a tal Norma.

Dentro do túnel de luz, ele ainda era puxado devagar, quando a voz gravíssima do ruivo foi novamente ouvida:

— <<Já me junto a você.>> – disse ele, enquanto seu imenso rosto de luz aparecia e desaparecia.

Dessa vez, quando o silêncio se fez e o ruivo sumiu, Abeô, instintivamente, virou o corpo em direção ao local de onde o outro desaparecera. E com a mão estendida, indagou:

— <<Onde você…?>>

Não precisou terminar a pergunta. Menos de um segundo depois, Abeô enxergou um ponto de luz cintilar distante, no mesmo ritmo em que a voz gravíssima do ruivo dizia:

— <<Tente não falar, Abeô. Ainda é sua primeira vez, você precisa conservar suas forças.>>

Enquanto as palavras soavam, o ponto de luz se aproximou rapidamente. A proximidade fez o africano perceber que o ponto, na verdade, era Aidan. Ele agora parecia ter um tamanho normal, mas ainda aparecia e desaparecia a cada sílaba que falava.

Antes de falar a última palavra, ele já estava ao lado de Abeô. Tomou a mão do africano e disse, aparecendo e desaparecendo, enquanto o puxava em direção à estrela:

— <<Vamos lá! Vou te levar o mais longe que eu conseguir nesses dez segundos.>>

Assim que o ruivo o tocou, Abeô sentiu um calor gostoso lhe percorrer todo aquele corpo de fumaça brilhante. Era como se, em lugar de lhe segurar pela mão, o ruivo o tivesse abraçado, cercado por todos os lados com seus pelos macios, sua barba, seu cheiro. Porém, havia também uma nota gelada naquelas sensações que invadiam o africano. Uma tristeza, uma mágoa, uma espécie de angústia.

Outro fato que chamou a atenção do africano era que conseguia sentir o toque do ruivo, mesmo quando ele desaparecia, entre as sílabas do que falava. Isso fez Abeô pensar que Aidan, na verdade, não desaparecia. Que ele apenas alternava entre visível e invisível a cada som que emitia.

Alheio ao que o outro pensava, Aidan puxou-o em direção à estrela, aumentando muito a velocidade com que se aproximavam dela. Abeô estranhou a impressão que lhe veio de que o ruivo o puxou por uns cinco minutos dentro do túnel de luz. Era muito mais tempo do que o outro dissera. Mesmo assim decidiu não perguntar nada. Apesar de ter feito seu coração parar, Aidan ainda parecia se esforçar para cuidar dele. Então, era melhor obedecê-lo.

A partir de certa distância, Abeô percebeu que sua primeira impressão sobre a estrela era errada. Não era apenas uma estrela: eram duas, muito próximas uma a outra. Logo em seguida, mais perto, ele viu que estava errado de novo. Aquelas coisas, o que quer que fossem, pareciam mais com pequenas bolas de luz das quais brotavam raízes, também luminosas. Depois do que pareceram mais uns dois minutos, já mais perto, percebeu que não eram esferas brilhantes, e sim cabeças humanas. Eram estátuas de névoa brilhante, deitadas no vazio, uma de frente para a outra. No entanto pareciam incompletas, já que seus brilhos se concentravam nas cabeças e rostos. Da nuca de cada escultura descia, em direção ao corpo, uma espécie de tronco da mesma névoa brilhante, repleto de raízes que iluminavam, parcialmente, o que seriam peito, barriga, braços e pernas. As áreas em que estariam mãos e pés, exceto por alguns pontos entre as estátuas, estavam totalmente preenchidas por escuridão.

As estátuas pareciam se abraçar e, o mais interessante, eram uma mulher e um homem. E se fossem pessoas reais, estariam se beijando. Tinham sido feitas com incrível precisão e, exceto por estarem imóveis e serem gigantescas, pareciam vivas. Até que Abeô percebeu: não eram esculturas, eram pessoas. Um homem e uma mulher congelados no tempo, beijando-se.

O africano pensou em perguntar o porquê do casal não se mover, mas de novo se conteve. Além da orientação de Aidan quanto ao silêncio, quanto mais perto chegavam do casal mais o negro sentia aumentar a força que o puxava em direção a eles. Em certa distância, Aidan parou e continuou segurando a mão do africano, que ficou dependurado no ruivo. Para Abeô, parecia, na verdade, que o imenso casal de luz era o chão do mundo inteiro. E que o ruivo, que de alguma forma voava acima deles, era a única coisa que o impedia de despencar em direção ao homem e à mulher.

— <<Vou deixar você se aproximar devagar deles…>> – sussurrou o tatuado, ainda alternando entre brilhante e invisível – <<Só até você enxergar o bastante.>>

Abeô perguntou-se o que, afinal, Aidan tentava lhe mostrar. O que já vira até agora não era confuso o bastante? Entretanto, o que aconteceu quando ele e o ruivo se aproximaram do casal fez o africano mudar de ideia.

Ele percebeu o efeito primeiro nos pés. O africano não apenas viu, mas sentiu quando cada um de seus pés passaram a ocupar dois lugares no espaço. Ele não sentia mais apenas um pé direito e um pé esquerdo. Quanto mais se aproximava, mais nitidamente sentia como se seus pés se dividissem, ou melhor, se duplicassem em dois pés direitos e dois pés esquerdos. Um par era atraído pela mulher, atrás, e outro pelo homem, à frente. Ou melhor, pelas gigantescas cabeças deles.

O africano tentava imaginar qual seria a relação entre as cabeças brilharem mais do que o restante dos corpos. Tentava entender também por qual motivo aquelas cabeças o puxavam a ponto de fazerem seu corpo se desdobrar em dois. Foi quando a voz de Aidan soou:

— <<Fique calmo, ok? Pode ficar tranquilo que eu puxo você de volta.>>

Abeô não entendeu. Seus dois pares de pés quase tocavam as testas do homem e da mulher. Em verdade, o negro se preparava, mentalmente, para “pisar” nas cabeças deles e equilibrar-se de alguma forma. Entretanto, quando o ruivo relaxou o braço, o africano sentiu seu par de pernas traseiras atravessar a testa e ser sugado para dentro da cabeça da mulher. O mesmo aconteceu com o par de pernas dianteiras, que foi sugado para dentro da cabeça do homem. O processo continuou até que ele foi quase totalmente duplicado e sugado. Apenas a mão direita continuou única e do lado fora, segurada pela de Aidan. Naquele momento, Abeô tinha dois quadris, duas cabeças, dois narizes, dois pescoços, um dentro do crânio dela, outro dentro do homem que ela beijava. Contudo, o mais confuso era que ele sentia que parte dos seus pensamentos começava em uma de suas cópias e terminava na outra, e vice-versa. Ao mesmo tempo, seus dois “eus” eram inundados por pensamentos que com certeza não eram seus. Um dos Abeôs pensava em rosas vermelhas, e queria vestir-se com um longo vestido branco. O outro Abeô sentia, de repente, uma louca vontade de ter enormes seios na boca, além de dezenas de mulheres chorosas implorando para que ele as rasgasse com seu enorme pênis. Foi quando, de dentro das cabeças do casal, os dois Abeôs complementaram, entre si, a percepção de que vários outros túneis de luz brotavam da cabeça do homem e da mulher, para quase todas as direções. Inclusive em direção um ao outro.

Quase imediatamente, a mão de Aidan (que por estar em silêncio, também estava invisível) puxou o africano de volta, para fora das cabeças do homem e da mulher gigantescos. Em poucos segundos, o ruivo o tinha afastado uns duzentos metros do casal, voltando pelo túnel de onde tinham vindo. Rapidamente, as duas cópias de Abeô se misturaram, tornando-o novamente um só. E foi nesse ponto que percebeu que não eram só aquele homem e aquela mulher que brilhavam. Havia pelo menos outras dez cabeças gigantes perto. Todas feitas de névoa brilhante, todas petrificadas, todas com troncos e raízes de luz que insinuavam o restante daqueles corpos gigantescos. A maioria daqueles gigantes flutuava no escuro, encolhida, olhos fechados. Uns dois tinham as mãos próximas à boca, como se comessem ou bebessem. Três outros gigantes pareciam conversar animadamente, sentados ombro a ombro, como se estivessem apoiadas na mesma parede. E finalmente havia, um pouco mais isolado e distante, um gigante já idoso, acocorado.

Não importava em que posições estavam, todas aquelas pessoas petrificadas tinham vários túneis de luz que lhes brotavam das cabeças. Não demorou para Abeô perceber que os túneis de luz interligavam todas aquelas cabeças gigantescas. E que, apesar de ele e Aidan serem os únicos que viajavam dentro daquele túnel, em todos os outros havia centenas de outras pessoas, talvez milhares. Todas eram feitas de névoa luminosa e tinham, aparentemente, o mesmo tamanho que ele e o ruivo.

Os viajantes dos outros túneis conversavam entre si enquanto passavam entre as cabeças das gigantescas pessoas petrificadas no tempo, cujas cabeças brilhavam. Foi também nessa hora que Abeô percebeu que não havia túneis de luz apenas entre as cabeças dos gigantes mais próximos. Outros feixes de luz se estendiam a perder de vista, principalmente em direção ao que seria o chão dos gigantes que pareciam sentados. Enquanto Abeô pensava consigo por que cargas d’água não tinha percebido tudo aquilo antes, ele enxergou algo ainda maior. Abaixo dos gigantes sentados, uma multidão de pontos brilhantes, estrelas conectadas por feixes de luz, formava uma verdadeira teia em forma de uma imensa e absurdamente gigantesca bolha. Tão grande que aqueles gigantes provavelmente poderiam caminhar sobre ela.

Foi quando Aidan, ainda calado e invisível, puxou o negro para baixo. Mergulharam em direção ao centro da bola, ao ponto em que todos os feixes de luz pareciam confluir num grande sol. Sobre esse sol havia homens e mulheres totalmente feitos de luz, como Abeô, Aidan, e todos os outros que viajavam dentro dos túneis da teia. No entanto, ao contrário de Abeô, que era centenas de vezes menor que as cabeças da superfície, aquelas pessoas eram dezenas de vezes maiores que os primeiros gigantes.

Montes pareciam crescer sobre o sol onde aqueles gigantes caminhavam. Eles pareciam ocupados, sempre empurrando os montes para dentro do sol, aplainando o chão em que caminhavam. Alguns daqueles mega gigantes, ao verem Aidan e Abeô, curvaram-se numa reverência, sorrisos tristes nos lábios. O africano, entretanto, não os viu por muito tempo. Logo em seguida Aidan fez um rápido giro e puxou o negro de volta para cima, para a camada mais externa da teia de luz. E num piscar de olhos, tudo ficou negro de novo.

Segundos depois, o africano sentiu, de forma bem mais sólida agora, dezenas de pancadas em diferentes partes de seu tronco, pescoço e cabeça. Foi quando o coração, dolorosamente, voltou a bater em seu peito. A respiração também retornou, mas com um arfar desesperado. Rapidamente, os olhos de Abeô se arregalaram, confusos. Ainda era noite, mas a luz da lua revelava os contornos de plantas, paredes, do painel do carro e das mãos de Abeô, que naquele momento estavam bem sólidas e nada brilhantes.

Do outro lado do parabrisas, uns trinta metros à frente do carro, o negro vislumbrou o vulto de um idoso se erguer de uma moita, puxando as calças como se as vestisse. O som de uma gargalhada fez Abeô olhar à esquerda atrás de Aidan, onde três frentistas conversavam, sentados num longo banco de madeira. Estavam ainda praticamente na mesma posição de quando o africano os vira petrificados, dentro da visão que o ruivo provocara.

Foi necessário apenas um leve ajuste no olhar para que o africano, ainda arfante, olhasse para Aidan quando ele falou:

— <<Vai ficar tudo bem, gigantão! Respire devagar, com calma. Não tente falar.>>

O africano, apesar do conselho, tentou perguntar alguma coisa, mas o mundo pareceu se dissolver numa vertigem. Quase desmoronou com a testa no porta-luvas, mas Aidan o segurou. O tatuado pôs o cinto de segurança nele e reclinou-lhe a poltrona até que ficasse quase deitado. Por fim, acariciou-lhe a barba e beijou-lhe os lábios de leve, dizendo:

— <<Agora durma um pouco, Abeô. Conversamos quando você acordar.>>

Dormir foi algo para o qual o ex-gogobear não precisaria qualquer esforço. O sono lhe sobrepujou a atenção fácil, mesmo enquanto observava Aidan afivelar o próprio cinto, dar a partida no carro e voltar a dirigir.

Mal o carro começou a balançar, o africano adormeceu. Dormiu por várias horas, um sono profundíssimo, sem sonhos, sem inquietações, sem perguntas. Um sono sem teias colossais, nem mega gigantes de luz que se curvavam para saudar o misterioso Sir Aidan McNaught.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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