Capítulo 51 – Suicídio

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Milhares de quilômetros a sudeste dali, no meio da Mata Atlântica, uma voz multitonal gritava:

— Some, sua fia do demo! Me deixa im paiz, diacho!

Duas espirais de relâmpagos desceram do céu, dezenas de quilômetros entre si. Sob uma delas, surgiu um ser totalmente coberto por feixes de espinhos, tão grossos que mais pareciam chifres serrilhados. A “coisa” girava o rosto erraticamente, em todas as direções. Caso seus olhos não tivessem sido substituídos pelos chifres, ela, certamente, expressaria extrema revolta enquanto gritava correndo entre as árvores:

— Vorta pro inferno, Satanais! Nem ‘marrado eu ‘judo ‘queles gordo viado sem vergonha di novo!

Entrecortada, a voz de Norma era ouvida apenas na mente da criatura:

— Mas nós não …mos escolha! Você preci… parar e me …cutar!

Novamente, duas espirais de eletricidade brilhante conectaram céu e terra. A primeira cercou o ser de espinhos, abduzindo-o para o local da segunda espiral. Assim que voltou a tocar o chão, ele saiu em disparada entre as árvores. Não dormia há dias, desde que tentara matar o depravado ruivo. A mulher-espírito, que ele antes jurara ser Nossa Senhora, não lhe dera paz desde então. Aparecia em cada canto para onde olhava, insistindo que ele ajudasse aos boiolas gordos. “Não mesmo, di jeito maneira!”, pensava consigo. Já tinha a aparência do demo desde que se entendia por gente. A última coisa que precisava era de fazer o trabalho do coisa-ruim, principalmente se esperava alguma misericórdia divina.

Fechar os olhos era algo que estava fora do alcance dele. Não que enxergasse de verdade. Os chifres lhe permitiam perceber os coriscos que cercavam todas as coisas vivas. Era uma noção bem precisa, que não conseguia evitar. Estava sempre  ligada, mesmo enquanto dormia. O que só deixava espaço aberto para a imagem e a voz intermitentes da mulher-espírito:

— Muita gen… morrer se …cê não me ouvir!

O espinhoso apenas ficou com mais raiva da mulher, das pessoas e de si mesmo. Isso porque parte dele se sentia aliviada com a ideia de que muita gente fosse morrer. Desde a infância, tinha uma relação de amor e ódio com as pessoas. Nunca tinha tocado em uma alma viva sequer. Acostumara-se a viver no mato como uma assombração, comendo sobras, ouvindo as falas ao longe. Escutar gente, mesmo que à distância, era alguma forma de conforto para a solidão que sentia. Contudo, bastava que vissem sua aparência demoníaca para que fugissem ou o agredissem. E, nessas horas, só lhe restava buscar consolo em Deus e na Virgem Maria.

Por isso é que tinha ficado tão animado ao ver o fantasma daquela mulher linda, vestida de azul, que sabia tudo da vida dele. Por isso tinha atendido seus pedidos apressados, com tanto afinco, sem questionar. No fim das contas, ela só estava empenhada em desgraçar ainda mais sua alma. Daria tudo para que nunca a tivesse visto. Ela não parava de implorar:

— Se o homem de …belos de fogo morrer, o mun… vai …cabar!

— Dêxa ‘cabar! – gritou a plenos pulmões, tonto de sono e fome. Parou, cambaleante. Caiu de joelhos, a vista turva.

— Você não … tende! Tudo vai fi… muito pior se ele… – ela insistiu.

— Nem quero intendê! – rosnou – ‘Gora some, diacho! Me deixa im paiz!

De repente, a mulher deixou de prestar atenção nele. Arregalou os olhos, encarando o horizonte acima das árvores, boquiaberta.

O espinhoso não esperou. Juntou todas as forças e criou uma sequência de espirais de eletricidade que o levaram para bem longe dali.

Enquanto isso, perto da divisa entre Rondônia e Amazonas, Abeô era arremessado para longe do carro. Instintivamente, ainda no ar, cobriu a si mesmo e as mochilas de piche. Sabia, contudo, que proteger a mochila e as roupas seria muito pouco. Tinha deixado Aidan para trás, com o carro cercado por cinco encouraçados gigantes e pelo menos outros quarenta no encalço. Por isso é que, desesperado, o africano tentava alcançar o chão para anular a força que o arremessara. Infelizmente, tudo que conseguira era quicar e ser girado no ar, o que provavelmente ainda aconteceria um bocado antes que finalmente parasse.

Ainda voando para longe, Abeô viu, num relance que pareceu durar uma eternidade, que Aidan já estava fora do carro. Coberto de chamas, ele também não tocava o solo, e parecia ainda fazer o salto para fora do veículo, parado sob as garras do encouraçado gigante. O ruivo tinha os punhos cerrados junto ao peito, gesto que o africano vira outras vezes. Nos instantes seguintes ele, provavelmente, faria com que jatos de fogo se projetassem de suas palmas, para atacar os inimigos.

Apesar do quanto esse vislumbre pareceu demorar, o corpo de Abeô continuou a quicar, girar e se afastar. Após alguns segundos, já coberto de piche, conseguiu cessar seu movimento a uns cinquenta metros do carro. E, imediatamente, voltou seus milhares de olhos para Aidan.

O ruivo já estava de volta ao chão, braços esticados em direção ao encouraçado que estava entre ele e Abeô. Um potente jato de chamas crescia dos seus punhos para o soldado e sua armadura, que se encolhia tentando proteger-se com os braços, mas sem parecer que fosse sair do combate. Atrás deles, os primeiros arpões voavam das armas dos outros encouraçados em direção a Aidan. Se ficasse ali, no próximo piscar de olhos com certeza seria trespassado por dezenas de arpões.

O tatuado não demorou a reagir. Não tinha visto os disparos, mas o som desses era toda a informação que precisava. Ainda em chamas, correu em direção ao encouraçado contra o qual atirava e, usando-o como escada, saltou acima para cair entre o mesmo e Abeô.

O africano sabia que não seria suficiente correr em direção ao amado. Precisaria alcançá-lo em segundos, milésimos de segundo. A única forma possível que imaginou seria com um salto gigantesco, mas ou menos como fazia na água, e foi o que ele fez. Flexionou as pernas e empurrou o chão com força. Como resultado, ele voou num arco vários metros acima do ruivo.

Impotente, Abeô viu-se ultrapassar Aidan e todos os encouraçados que ainda corriam em direção ao Assassino de Deuses. Mesmo assim, com os olhos do piche em suas costas, ele viu quando o ruivo pousou. Rapidamente, ainda em chamas, escondeu-se atrás do inimigo, que foi atingido por uns três arpões dos colegas. Dezenas de pequenas explosões surgiram na armadura, que logo se abriu para cima ejetando o piloto a vários metros de altura.

Sem um piloto, a máquina começou a desabar e, com ela, a proteção de Aidan. O africano tinha certeza que se não conseguisse se colocar como escudo para os próximos arpões, o ruivo seria atingido e perderia a consciência. Os inimigos o levariam e, com toda certeza, fariam algo muito pior do que matá-lo.

Como se as coisas não pudessem ficar piores, Abeô viu as luzes de um avião que se afastava fazerem uma curva no céu. Assim que a aeronave virou disparou um robusto arpão contra ele, e o africano sabia bem quão longe de Aidan aquele gancho poderia levá-lo.  Infelizmente, tudo que podia fazer, até voltar ao solo, era torcer para pousar antes que arpão o alcançasse.

Enquanto isso, dezenas de novos arpões voavam para o ruivo. O salto que deu, seguido de uma série de contorcionismos e acrobacias, permitiu-lhe escapar apenas com arranhões. Mesmo assim, a maneira como caiu não foi vantajosa. Na salva de tiros seguinte, ele dificilmente conseguiria repetir a proeza.

Nesse meio tempo, Abeô voltou ao solo, e teve apenas um piscar de olhos para rolar para um lado e desviar-se do gancho do avião. Por um breve momento, imaginou que o arpão se prenderia no chão com força suficiente para prejudicar o voo da aeronave. Porém, quase imediatamente, o cabo de aço soltou-se do avião caindo inerte no chão. O que indicava que o piloto faria a volta para tentar um segundo tiro contra o golem de piche.

Mais que depressa, o africano pulou em direção ao ruivo, desta vez calculando melhor a força. Depois de dois segundos que pareceram uma eternidade, ele caiu entre Aidan e os outros encouraçados, de frente para o companheiro e de costas para os inimigos. A maioria dos arpões recém disparados enterrou-se no piche, injetando a eletricidade que o deixava mais alerta, mais forte. Ele até puxou o braço com força, numa tentativa de atirar pelo menos alguns dos encouraçados contra a aeronave que voltava. Infelizmente, o que conseguiu foi romper os cabos dos arpões.

Enquanto isso, o avião disparava o grande arpão contra Abeô. Ele jogou-se para o lado, tentando se desviar, mas assistiu impotente o gancho aproximar-se, perigosamente, de sua perna. Teria sido fisgado caso Aidan, ainda em chamas, não tivesse atirado uma das peças do encouraçado derrubado em direção ao arpão da aeronave. Isso provocou um leve giro do projétil, o suficiente para que a ponta não fosse a primeira parte a acertar o piche. Assim que o avião passou acima, a maior parte dos encouraçados começou a disparar contra Abeô projéteis do comprimento e diâmetro de uma faca de churrasco. Enquanto isso, os demais soldados atiravam, por cima dele, dezenas de esferas metálicas repletas de furos.

Antes de ser atingido pelas gigantescas balas, o africano lembrou-se das esferas. Ele as tinha visto uma única vez, na noite em que o Thermópolis fora destruído. Sabia que cada uma, assim que tocasse o chão, dispararia pequenos arpões em todas as direções. Criariam uma muralha de espinhos elétricos, dos quais Aidan, por mais ágil que fosse, não conseguiria se desviar.

Enquanto pensava nisso, Abeô sentiu o primeiro projétil enterrar-se no piche e explodir. A bolha de fogo expandiu rápida dentro do líquido negro, dando a impressão de que chegaria ao tamanho de uma bola de futebol. Um buraco que, certamente, engoliria um bom pedaço da pele humana do africano. Era desesperador, considerando que pelo menos outras vinte voavam para ele naquele momento, e que os encouraçados continuavam a disparar.

Abeô não estava acostumado à dor. O piche era, normalmente, extremamente indolor e resistente. A única vez em que experimentara algo remotamente parecido com aquilo fora com as balas antes de ser içado do Thermopolis. Daquela vez, a impressão era de que as balas abriam buracos em sua carne. Agora, era como se lhe abrissem uma cratera nos miolos. A atenção se esvaía fácil, fugindo de toda aquela dor.

A única reação que conseguiu foi a de jogar-se para cima de Aidan. Precisava cobri-lo antes que as esferas perfuradas tocassem o chão. O ruivo, felizmente, pareceu ter o mesmo raciocínio, encolhendo-se enquanto corria em direção a ele.

A segunda e a terceira bala acertaram perto da primeira. A quarta não o atingiu, passando direto, mas ainda longe do caminho do ruivo. A quinta, a sexta e a sétima acertaram Abeô na nuca, no antebraço e na coxa. As bolhas de fogo cresciam dentro do piche, mas principalmente para fora. De alguma forma o piche mantinha no mínimo dois centímetros de espessura separando as mochilas e a pele de Aidan das chamas.

Em meio a tantos golpes, Abeô quase não percebeu o avião fazer a volta para atirar um novo arpão contra ele. Ainda corria para deitar-se por cima do ruivo enquanto a primeira das esferas metálicas quicava no chão, projetando os primeiros centímetros dos espinhos elétricos. Desesperado, o africano sabia que precisaria deitar sobre o ruivo antes que os espinhos elétricos o alcançassem. Contudo, sabia também que precisaria desviar-se do arpão do avião, ou seria levado para longe dali. E por mais que o tempo parecesse passar lentamente, por mais que pensasse, repensasse e revisse a situação, não conseguia achar uma saída. E a saída que Aidan encontrou não foi nada agradável para Abeô.

Assim que percebeu o arpão ser disparado, o ruivo, ainda correndo, apagou as chamas e ergueu sua coluna. Projetou-a para a esquerda, guiando a cabeça para uma das balas que passara rente ao africano. Posicionou o meio da testa bem em frente à bala, murmurando um “eu te amo” silencioso enquanto encarava Abeô.

Ele então fechou os olhos. E, em câmera lenta, o africano assistiu a bala perfurar a testa de seu amado.

 

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