Capítulo 52 – Desencarnação

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Notas do autor: 1) Ainda não conhece Golem? Então, antes de ler este capítulo, clique AQUI e visite a página da série.

2) Sim, este capítulo borra os limites entre a ciência e o sobrenatural, mas isso só é válido no universo que inventei para Golem. Eu não acredito que o mundo real funcione conforme Aidan descreverá. No mundo real, não temos elementos científicos para ter qualquer certeza sobre o pós-morte, se é que existe algum. Existem, na verdade, inúmeras teorias e crenças sobre essa possível vida após a morte do corpo físico. O que escolhi como mecânica do pós-morte para o universo de Golem é só uma das inúmeras possibilidades para o funcionamento desse pós-vida, uma que não quero que vire crença ou religião de ninguém, uma que criei apenas para que você se divirta e pense, por alguns instantes, em outras possíveis mecânicas de vida após a morte além daquelas que as principais religiões ensinam.

 

Nas profundezas da Mata Atlântica, a criatura de espinhos ainda corria. Era um alívio deixar de ouvir os pedidos pecaminosos da mulher transparente, mas isso só durou uns dez segundos. Num rápido relance, ela reapareceu em frente a ele. Parecia assustada quando murmurou, com lágrimas nos olhos:

— Desculpe, Cão…!

Mal ela terminava de falar e um grilhão metálico surgiu no antebraço do brasileiro. Da peça nasceu uma corrente que, como uma víbora, voou para o horizonte além da vista. Rapidamente, ela pareceu içar alguma coisa e retesou-se com tanta força que, num supetão, o ser de espinhos foi puxado para longe dali.

Voando a uma velocidade estonteante, até mesmo para ele que cavalgava relâmpagos, Cão viu-se puxado para dentro de uma gigantesca explosão. Parecia que ele caía dentro de um sol e seu primeiro impulso foi de invocar raios e sumir dali, mas nenhuma fagulha surgiu. Restou-lhe apenas o medo, que fazia os centésimos de segundo daquele mergulho parecerem uma eternidade, garganta e estômago regelados. E o calor. Cada vez mais intenso, doloroso, queimando-lhe pele e ossos. Ele sempre fora corajoso em suas penitências, sempre encarara a dor de frente, mas nunca tinha imaginado que uma dor assim podia existir.

Então Cão percebeu que a dor não era dele. Ao longe, no meio das chamas, ele via o vulto de um homem. A corrente puxava o quântico de espinhos para esse vulto e quanto mais se aproximava mais sabia que a dor não era dele e mais se via invadido por uma tristeza, um medo que não era dele. E tanto por essas emoções quanto pela aproximação, ele começava a perceber quem era o vulto para o qual a corrente o puxava.

Era o ruivo tatuado. O viado nu que o gigante negro beijara na boca.

Por exatos dois segundos, Cão ainda tentou convocar seus raios, sair de perto, livrar-se, mas foi em vão. A corrente estava mergulhada no peito do ruivo e, assustado, o brasileiro viu sua mão também mergulhar no peito dele.

Imediatamente as chamas desapareceram e uma miríade de imagens borradas cercou os dois. Aos poucos elas se fizeram claras até o ponto de se tornarem dolorosamente nítidas. Cão tinha certeza de que o ruivo, que de alguma forma sabia que se chamava Aidan, tinha uma percepção pra lá de nítida de cada detalhe daquele lugar congelado no tempo.

Encouraçados à frente, uma miríade deles e bem maiores do que tinha visto antes, atiravam no gigante coberto de piche. Boa parte das balas, grandes como peixeiras, acertavam-lhe as costas. Algumas passavam reto e uma delas, em particular, já feria a testa do ruivo, que se erguia altivo diante dela. Olhando para o projétil, Cão percebeu que não estava congelado no ar. A bala girava em torno de si mesma avançando para dentro da cabeça de Aidan, tão lentamente quanto o ponteiro dos minutos. Em um ou dois minutos perfuraria o osso, o que, por si só, fazia o estômago de Cão embrulhar. Afinal, sabia muito bem o que uma bala daquele tamanho faria com a cabeça de alguém. E ainda havia outras balas a caminho, que acertariam o ruivo e o quântico dos espinhos. O que, definitivamente, era pavoroso para ele.

Foi nesse momento que Cão percebeu que Aidan, apesar de ver cada uma das balas, não tinha medo delas, nem da dor que provocariam, nem da morte que carregavam. Algo doía mais, muito mais.

Abeô.

O africano também estava congelado, mas parecia gritar a plenos pulmões, tentando alcançar o ruivo. Ou pelo menos olhar, um pouco que fosse, para Aidan. Essa foi a percepção de Cão. A dor que inundava Aidan era a de não poder escolher diferente, de ter que fazer Abeô assistir aquela cena. O brasileiro sentia, como se fossem palavras feitas de não-palavras, de pura emoção, o quanto o tatuado queria ter deixado o africano seguro, confortável financeiramente e ao lado de outra pessoa, pequena e jovem, mas muito importante para Abeô. Essa percepção fez com que o quântico de espinhos, subitamente, tivesse vontade de chorar. De dor, de tristeza, de culpa, de vontade de fechar olhos, ouvidos, tudo, de vontade de não saber, de não ter descoberto aquilo que, naquele momento, o surpreendia: o que Aidan sentia por Abeô era o mais profundo, intenso e sincero amor. Ao contrário do que Cão imaginava até então, o tatuado não era um homem mais experiente, mais inteligente, mais pervertido, aproveitando-se da ingenuidade do africano para satisfazer seus desejos carnais. O que Aidan sentia por Abeô não era carregado de culpa, nem era sujo, nem egoísta. Pelo contrário: o tatuado morreria mil vezes da maneira mais dolorosa possível se isso diminuísse o sofrimento de Abeô. O pior, porém, era perceber que Aidan estava triste porque tinha certeza, absoluta, que o africano tinha o mesmo sentimento por ele.

Desesperado, Cão tentou arrancar a mão de dentro do peito do tatuado. Em vão: mesmo sem vê-lo o brasileiro sentia o grilhão dentro do peito de Aidan, prendendo os dois naquela posição. Então, como que por encanto, o ambiente mudou. Os vultos agora eram vários, e os ambientes também. Difícil, praticamente impossível compreender.

Então, naquela tempestade de imagens, um menino ruivo passou correndo, em câmera lenta. Automaticamente, todo o resto, todos os vultos, tornaram-se nítidos também. Árvores. Um gigantesco cervo correndo seis metros à frente da criança, provavelmente fugindo da lança que ele trazia. Era noite de lua cheia e, embora não pudesse ver direito, percebia como o menino estava. Despenteado, com um saiote xadrez puído, sem camisa. Pinturas azuis no corpo, lança na mão, rosto sujo, corpo sujo e pés descalços. Estava frio, a terra era gelada nos pés molhados do menino. Aidan podia sentir. E Cão também.

Foi assim que o quântico dos espinhos soube que aquele menino era Aidan, muito jovem. E que era verdade que quando alguém morre vê toda a vida passar diante dos olhos.

Sob o olhar de Cão, o menino Aidan atirou a lança contra o cervo. Levou quase cinco segundos antes que a lança se cravasse no pescoço do animal, e mais uns dez para que esse caísse, vencido.

As imagens voltaram a ser vultos velozes, ao mesmo tempo em que Cão, mão enterrada no peito da versão adulta do tatuado, recebia uma enxurrada de emoções do moribundo. Emoções nítidas, eloquentes como milhares de palavras. Ele sabia que, naquela época, Aidan tinha nove anos. E mesmo que não acreditasse muito, sabia que aquilo tinha acontecido há exatos 2192 anos, numa era muito anterior ao Cristo. Num lugar em que a Santa Igreja e seus costumes, tão prezados pelo quântico brasileiro, não tinham o menor sentido.

Num relance, Cão viu o vulto da mãe de Aidan, mas em momento algum viu o pai. Em lugar de um pai, havia três homens de quem o menino era mais próximo. Três homens que pareciam manter, simultaneamente, um casamento com a mãe do tatuado. Vendo isso, Cão tentava, com força, pensar em quão pecaminoso tal arranjo era, mas não conseguia. As memórias de Aidan eram fortes demais: afeto, carinho e saudade por aquela mulher e seus três maridos. Para ele, tudo naquele passado era lindo e saudoso, perfeito. Uma época de ingenuidade que pouco depois tinha sido tomada por uma avalanche de regras.

Entre revoltado e envergonhado, o quântico dos espinhos percebeu que a avalanche de regras era o que ele conhecia como cristianismo.

Cão tentou puxar a mão para fora do peito de Aidan mais uma vez, assustado. Não conseguia pensar. Sentia que todas as suas certezas tremiam, que o mundo se tornava uma grande incerteza. Queria pausar cada coisa, pensar com calma em tudo aquilo, mas não conseguia. As emoções e as imagens voavam rápidas, tanto para Aidan quanto para Cão. Para Aidan, era fácil entender tudo: eram as emoções que vivera, mesmo que numa velocidade assustadora. Para Cão, era como um vórtice no qual poderia perder a própria identidade, esquecer-se quem era e o que considerava importante. De qualquer forma, para ambos, Cão e Aidan,  pensar era quase que totalmente consumido pelo sentir.

De repente, as imagens ao redor congelaram-se novamente. Era dia, e eles estavam numa colina coberta por vegetação rasteira. Aidan tinha dez, onze anos. Estava num campo de batalha, centenas de homens e mulheres movendo-se devagar ao redor, lutando com lanças e espadas. Nus, todos nus, exibindo grandes tatuagens nas peles brancas, boa parte delas coberta pelo sangue dos oponentes. Na verdade, só agora Cão percebia que o jovem Aidan não estava apenas sem camisa: também estava nu, espada na mão. E ele, como outras crianças no campo de batalha, não tinha tatuagens. Tinha pinturas.

A poucos metros dali, o Aidan adolescente, o Aidan atual e Cão percebiam, ao mesmo tempo, a mãe do tatuado, que também lutava nua, seios e abdôme cobertos de tatuagens e de sangue. Tinha acabado de rasgar o pescoço de dois homens com o mesmo golpe, e atrás dela outras pessoas, homens e mulheres, caíam lentamente para o chão, sangue voando de grandes feridas de espada. Então, também lentamente, outra mulher dirigiu sua espada, para o seio da mãe de Aidan. O jovem gritou, Cão sentiu o adulto gritar também, mas não houve tempo. As imagens ao redor, subitamente, passaram ao ritmo normal da batalha. Em menos de um segundo, a lâmina enterrou-se no seio que amamentara o ruivo, profunda o suficiente para sair pelas costas, jorrando muito sangue. E, quase automaticamente, as chamas nasceram na pele do jovem Aidan.

Em menos de três segundos a bolha de labaredas tomou a colina. Cão sabia que o jovem Aidan ficara completamente desnorteado pela primeira manifestação de seus poderes quânticos. E não era pra menos: enquanto as chamas queimavam ele sentia como se respirasse demais, como se houvesse tanto ar que o sufocava. O coração disparou, os músculos do corpo inteiro tremeram, vibraram, o mundo girava loucamente ao redor. Até que o jovem desmaiou.

Enquanto as imagens voltavam a ser uma turba de vultos, Cão sentia algo parecido com culpa no tatuado. Culpa porque quase 150 homens e mulheres de sua tribo morreram naquele breve momento. Entretanto, antes que Cão fizesse qualquer julgamento sobre a questão, a voz de uma mulher, que ele sentia como a de um líder religioso, cortou a tempestade de imagens borradas. Palavras num idioma que Cão nunca ouvira, mas que compreendia tão perfeitamente quanto Aidan:

— Aidan McNaught… foste tocado pelos Deuses. Não sofras pelo que aconteceu… antes de isso saberes. Mas agora que o sabes, cumpre sentir e escolher… de que forma sofrerás por tua honra… e se queres viver ou morrer.

Os vultos voltaram a ser nítidos e as imagens, de novo, pareciam congeladas. O menino Aidan, três dias após a batalha, estava em pé, nu, não mais com pinturas azuis no corpo. Sentia-se petrificado. À frente, ele fitava os olhos afiados de uma mulher de meia idade, também nua, com centenas de tatuagens no corpo e rosto. Ao redor, a floresta e um círculo de pedras esculpidas como caveiras. No centro do círculo havia ainda uma fogueira e uma mesa de pedra, de  onde a mulher erguia a ponta de um punhal para o pescoço do jovem Aidan, enquanto dizia:

— Se escolhes manter tua honra… e recusar o dom que carregas… atira-te contra minha lâmina… e tua alma será liberta.

O jovem considerou seriamente a hipótese. Era tudo que queria após ter eliminado todos os guerreiros de sua tribo, incluindo seus pais e mãe. A tristeza e a culpa faziam-no sentir-se morto, atirar-se contra o punhal da sacerdotisa seria, na verdade, libertar-se.

Isso, porém, era o que o jovem Aidan sentia. O adulto, ao rememorar aquele momento, agradecia por não ter escolhido a primeira opção. E o que deixava Cão assustado não era Aidan sentir que boa parte dessa gratidão era pelo que vivera com Duncan, Sebastian e Abeô. Para Cão, desesperador era admitir que os sentires de Aidan faziam todo sentido. E que eram belos.

O jovem Aidan ainda tinha a garganta encostada à ponta do punhal da sacerdotisa. Ela, com os mesmos olhos afiados, continuava:

— Mas se escolhes honrar os teus deuses… e aceitar o dom que lhe é dado… adentra este círculo de dores… e de prazeres mais que sagrados.

Levou quase cinco segundos para o jovem entender o que estava em questão. Qualquer das alternativas seria honrada. Ambas trariam sofrimento. Uma seria a libertação. A outra traria prazeres. E embora nos últimos três dias a sacerdotisa tivesse lhe dito, inúmeras vezes, que seu poder vinha dos deuses, só agora ele começava a pensar nisso de verdade.

Cão ouviu a voz da mãe de Aidan, aparentemente na mente do jovem, enquanto ele pensava no que a sacerdotisa lhe dissera:

“Dor e prazer, fúria e amor, dever e poder. Três pares sempre juntos, diferente não pode ser. Todos eles chegam aos vivos, mas não em igual medida… pois prazer, amor e poder são sinais dos que honram a Vida”.

Esse era um dos principais axiomas de seu povo, uma crença fundamental. Para eles, prazer, amor e poder eram sinais que seguiam os que honravam os deuses. Então, se aceitar os poderes dos deuses lhe traria prazer, esse era o sinal de que seus poderes, de fato, provinham dos deuses.

Todos esses conceitos, é claro, eram pra lá de revoltantes para Cão. Se havia algo que o quântico brasileiro acreditava piamente era que o prazer levava à perdição.

O jovem Aidan não pensou muito mais. Murmurou:

— Eu aceito os dons.

Novamente as imagens se aceleraram, mas não por muito tempo. Durou apenas o suficiente para que o jovem visse, atrás da sacerdotisa e dentro do círculo de pedras, um homem de mais ou menos 35 anos, também nu e coberto de tatuagens. Duncan, aquele era Duncan, Cão tinha certeza. As imagens se congelaram na mesma velocidade em que um sorriso se armou nos lábios do homem ao ver o menino Aidan. Na mesma velocidade com que a euforia nascia no coração do Aidan adulto. Ele quase não se lembrava mais como era o rosto de Duncan, e ao revê-lo de forma tão nítida exultava pelo tempo que viveram juntos. Pelas décadas que vivera com Duncan, pelas décadas que vivera com Sebastian, pelos meses que convivera com Abeô e os dias que se permitira amá-lo. Uma última nota naquela tempestade de sentimentos, carregada com uma boa dose de lamento por deixar o africano tão cedo e em tão má situação.

Cão, nessa tempestade de emoções, também sentia tudo isso. Era, na verdade, como nadar contra a correnteza. Num segundo, era inundado por todas as emoções que as lembranças traziam a Aidan. No segundo seguinte, tentava limpar da mente esses sentimentos que não eram seus. Então, novamente irrompiam lembranças do tatuado e lá vinha outra avalanche de emoções.

O quântico dos espinhos, agora, via novamente as imagens borradas. No decorrer de anoiteceres e amanheceres, percebia que Aidan sentia contra sua pele o gelo, o ferro quente, a mão da sacerdotisa e o toque formidavelmente agradável de Duncan. E no meio de tudo, as vozes de Duncan e da sacerdotisa entoando infinitas vezes:

— Que a neve vos ensine a congelar vossas chamas. Que a brasa vos ensine a alimentar vossas chamas. Que o frio vos mostre o apagar. Que o calor vos mostre o queimar. Entre o fogo e o congelar… que vossa alma aprenda a dosar. Que a neve vos…

O jovem Aidan estava deitado nu na mesa. Começavam cobrindo seu corpo com neve. Depois, num instante, a lâmina em brasa lhe traçava contornos nas costas, chiando enquanto queimava a pele. E em seguida, novamente, a neve.

Nas primeiras vezes, as chamas nasciam do corpo do jovem Aidan, sufocando-o como da primeira vez. A sacerdotisa e Duncan só sobreviviam por magia. Conseguiam, de alguma forma, fazer uma esfera invisível em que as chamas do jovem não penetravam. Quando as chamas se apagavam, novamente mais neve e mais lâmina em brasa nas costas do rapaz.

Ao final de treze noites, as chamas já lhe traziam prazer. Ele as acendia e apagava à vontade, e cada vez que as acendia era como se estivesse muito acordado, como se estivesse no auge de um banquete, uma onda de euforia nascendo na boca de seu estômago. Não havia mais neve nem lâmina em brasa. O jovem estava esgotado, apenas sentia os eventuais afagos de Duncan e da sacerdotisa em suas costas e cabeça. E as agulhadas, que não pareciam doer mais. Para um povo como o seu, era admirável que ele recebesse, tão jovem, tantas e tão grandes tatuagens.

Ao final de tudo, o jovem Aidan foi carregado, semiconsciente, nos braços de Duncan, de volta à aldeia. Duncan, apesar de gordinho, era um homem de porte respeitável: cabelos compridos e barba bem aparada, de tom marrom escuro, quase negro, contrastando com o azul profundo dos olhos. O corpo era quase sem pelos, mas forte o suficiente para sobreviver às batalhas representadas em cada tatuagem que carregava na pele. E tinha a pele quente e macia, que fazia o desfalecido jovem Aidan, sem perceber-se do fato, roçar de leve o rosto contra o peito do outro.

Exceto pela diferença de tamanho, era inevitável não lembrar de Abeô.

Seu povo não tinha tabus. O amor nunca fora um tabu. Entre homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, ou até mesmo outras possibilidades se os envolvidos se amassem e tivessem prazer. Isso era celebrado. Aidan, de fato, já tinha achado outros homens e meninos belos, há muito tempo, muitos deles realmente mais bonitos do que Duncan. Nenhum, porém,  tinha o deixado tão extasiado quanto o druida.

As imagens voltaram a correr, embaçadas, enquanto Cão tentava limpar da mente tudo o que o jovem Aidan sentia. Todavia não demorou nem dez segundos para que as imagens novamente se congelassem. Aidan tinha 18 anos agora, e Duncan perto de 43. Lentamente, outros homens e mulheres batiam palmas e dançavam ao redor, enquanto Duncan derramava um odre de cerveja na boca do jovem Aidan, gargalhando. Alguém se casava, Cão percebia isso em algum canto dos sentimentos de Aidan. Não era nisso que o quântico das chamas prestava atenção. O importante, para ele, era o fato de que, na metade do odre de cerveja, seu eu jovem puxara os lábios de Duncan para os seus, o coração disparado pelo medo do que aconteceria a seguir. Por um breve momento, Cão pensou que o jovem tinha medo de ser surrado pelo mais velho, mas não. O primeiro beijo, mesmo que forçado, era visto como uma declaração de amor. A pessoa que o recebesse, tendencialmente, não se sentiria ofendida. A ofensa estaria numa segunda tentativa após um “não”.

Duncan, entretanto, beijou de volta entregando o odre de cerveja para algum passante. E, num vôo de imagens, os dois já estavam numa cabana, Duncan cavalgando Aidan enquanto se beijavam.

Era perfeito. Aidan sentia, e com ele Cão também, cada sensação do corpo de Duncan. Estar dentro dele, beijá-lo, sentir a barba nos lábios, o cheiro dele. Perfeito como Sebastian, perfeito como Abeô. Perfeito de um jeito diferente, pois cada um deles tinha um jeito diferente de olhar, de se mover, um cheiro diferente, um sabor diferente, mas absolutamente perfeitos na maneira como faziam Aidan sentir-se completo e feliz.

Confuso, enojado, extasiado, Cão observava os dois amantes alternarem posições, beijarem-se, abraçarem-se, dormirem e acordarem à medida em que envelheciam. Aidan agora tinha 22 anos, e Duncan 47. Choravam abraçados, à margem do mar. Separavam-se. Doía. Duncan tinha que cuidar da vida espiritual da tribo. Aidan tinha que começar seu aprendizado. Torciam, no meio de tudo, para que o treinamento terminasse antes que Duncan morresse de velhice.

O mar. Aidan viajou, junto com uma mulher oriental de meia idade, para o leste. Uma terra exótica, de hábitos estranhos. Uma montanha, gelo fora dos templos. Lutas, armas, como se seu corpo decorasse poemas e encantamentos. Meditações, mantras, viagens espirituais. Até que chegou o dia do jovem Aidan conhecer os deuses.

Ninguém tinha essa autorização, só ele e a mulher oriental. Ela o encontrara quando Duncan e a sacerdotisa relataram a presença de alguém resistente a magia. Alguns anos depois, ela viajara para aquele continente apenas para vê-lo e atestar: ele era um Assassino de Deuses.

Junto com o jovem Aidan, Cão viu a estrutura das almas formando a grande teia espiritual. Miríades de pessoas vivendo no imaginário dos vivos, um lugar não-lugar, feito de trevas e o que as almas dos mortos construíssem. No centro de tudo, a prisão dos deuses, um “sol” de cujos raios nasciam cordões umbilicais para todas as almas, tanto dos vivos quanto dos mortos. Caminhando sobre ele, os titãs, almas poderosas, antigas e gigantescas, encarregadas de expulsar os magos que tentassem entrar na prisão dos deuses.

Para Cão, pior que a blasfêmia de Aidan ser um Assassino de Deuses, entrar na prisão deles, pior que Aidan ser homossexual, era a certeza de que aquelas lembranças eram genuínas. O quântico brasileiro podia escutar, tanto no passado quanto naquele momento, sussurros que ele tinha certeza virem de todos os seres humanos do planeta. De todos os vivos, de todos os mortos, de todas as épocas.

Os titãs, obviamente, não impediram que as almas de Aidan e da mulher oriental entrassem dentro desse “sol”. No interior havia um salão oval, com centenas de espelhos mostrando cenários diferentes. Lugares de gelo, de lava, de escuridão, de luz, de flores, de guerra, de nuvens, de matas. Em pouco tempo um dos espelhos deixou sair uma mulher de pele muito brilhante, tão brilhante que suas feições eram difíceis de serem reconhecidas.

— Eu sou a Vida, Aidan McNaught. Sou a Deusa mais venerada pelo povo no qual você nasceu. – disse ela. – Por isso, sou a encarregada de lhe apresentar os outros deuses.

Um a um, passearam entre os espelhos. Vida mostrava a Aidan cada divindade. Algumas mais amigáveis, gregas, egípcias, fenícias, chinesas, japonesas. Às vezes os  deuses eram conhecidos de maneiras diferentes, com nomes diferentes, por diferentes culturas. Todos já tinham sido humanos. Eram, na verdade, os mais antigos e poderosos humanos que, por um motivo ou outro, tinham alcançado o poder para acessar todos os cérebros vivos do planeta, de uma única vez, e rotineiramente.

Entretanto, nada poderia preparar Cão para a surpresa de ver Monus. Ele era o Jeová dos Judeus, o Alá muçulmano, o Rá egípcio, o Assaramat pré-atlante, o Hares grego, o Marte romano. E o que fazia ele diferente da esmagadora maioria dos outros deuses era simples: ele queria destruir todos os outros e reinar, absoluto, sobre todos os humanos.

Seu espelho era lacrado. Monus o golpeava, de dentro para fora, tentando rompê-lo a todo custo. Cão podia sentir, através de Aidan, os pensamentos desse deus revoando em sua pele. O Velho Testamento da bíblia cristã. As batalhas avassaladoras de remotas eras. O dilúvio. Deuses só podiam ser destruídos se a quantidade de cérebros humanos diminuísse tão drasticamente que só sobrassem dez, vinte cérebros de pessoas totalmente fanáticas por Monus. E Monus não ligava. Se escapasse do espelho, destruiria bilhões de pessoas sem piscar, mesmo que fossem seus fiéis mais devotados. Monus não precisava de mais do que duas pessoas, um homem e uma mulher, para repovoar o mundo.

Monus também tinha raiva de Aidan, Cão podia sentir. Na verdade, tinha todos os motivos para ter raiva. Primeiro, Aidan era um Assassino de Deuses, um dos quatro únicos cujo cérebro Monus jamais poderia possuir, o único que ele não poderia afetar com magia. Segundo, Aidan era pagão, servia a outra divindade. Terceiro, Aidan era quântico, e teria poderes mesmo que todos os outros seres humanos do planeta tivessem morrido, poderes que não seriam alterados por magia. Por último, Aidan era homossexual. Fazia parte de um grupo de pessoas que nascia espontaneamente, de um incômodas combinações de genes das populações dominadas por Monus. Era com as mesmas tendências de Aidan que refreavam o crescimento dos povos de Monus e, consequentemente, impediam que seu poder crescesse muito mais rápido do que o dos outros Deuses.

Cão, porém, não viu apenas a raiva de Monus contra Aidan. Viu o reino que ele queria construir. Bilhões de pessoas nascendo a cada dia para abastecer guerras infindas entre os povos governados por ele. Nascimentos e mortes infinitamente numerosos, para que a população humana evoluísse o mais rapidamente possível e Monus tivesse o máximo poder possível, governando diretamente todos os humanos, que deveriam lutar por Monus contra outros servos de Monus. E a recompensa dos sobreviventes não incluía comida, bebida ou conforto. Seria exercitar os músculos à exaustão em nome de Monus, violentar centenas de mulheres e novamente lutar, em nome de Monus, até a morte humilhante nas mãos de outro servo de Monus. Mãos que poderiam, inclusive, ser as do próprio filho, pai ou irmão do guerreiro.

O reino de Monus, Cão enxergava nitidamente, seria repleto de gritos de mulheres e crianças famintas. Seria um palácio de ouro no topo da montanha mais alta da terra, enquanto o restante do planeta estaria coberto pelo sangue apodrecido das batalhas e das chicotadas sobre os que plantavam.

Cão não gostou do que viu. Então era por isso que ele odiava Aidan? Para trazer um ser sanguinário do profundo das mentes humanas para transformar o planeta num… campeonato de torturas e morte?

Mesmo sem ser visto nas lembranças ele vomitou. Tinha nojo da culpa que tinha se acostumado a sentir. Tinha nojo do jejum que quase o matava todos os dias. Tinha nojo de ter tido nojo de Aidan.

Enquanto as imagens se turvavam novamente, em ritmo acelerado, Cão, ainda com a mão enterrada no peito de Aidan, balbuciou um “perdoe-me”. Ele pouco olhava ao redor, não parava mais para racionalizar ou resistir ao que Aidan sentia com as próprias lembranças. Acompanhou-o profundamente, em cada sentimento, até vê-lo abraçar um senhor, quinze anos depois, na Escócia. Um senhor barrigudinho, de olhos azuis formidáveis, cabelos grisalhos e barba cinza. Um druida: Duncan. E o beijo carregado de saudades deles que tinham se sentido incompletos por mais de uma década. O alívio de saber que, pelo menos nos últimos anos de Duncan, estariam juntos. Ainda era muito mais do que Aidan e Abeô teriam.

Num salto, Cão se lembrou que aquilo não era real. Eram lembranças acontecendo num átimo de tempo, enquanto uma gigantesca bala penetrava o crânio de Aidan. E embora o tatuado não pensasse nisso, Cão sabia: a responsabilidade era sua. E se pudesse consertaria a situação.

Assim que esse pensamento surgiu, o quântico dos espinhos sentiu o grilhão soltar-se de sua mão. Ele ainda estava ao lado de Aidan, mas os vultos acelerados das lembranças tinham dado lugar ao presente quase congelado. A bala ainda girava na testa de Aidan, praticamente tocando o osso agora.

Cão gritou com todas as forças, invocando sua espiral de relâmpagos. Sentiu-a nascer longe, bem longe dali, onde seu corpo físico tinha visto a mulher transparente pela última vez. Comparada com a bala na testa do Assassino de Deuses, a eletricidade era lenta demais, e ainda estava distante. Ele tinha certeza que os raios chegariam tarde demais. Por isso, mentalmente, o quântico dos espinhos gritou pela mulher transparente.

Ela não demorou a surgir naquela batalha congelada, falando apressada:

— Eu estou tentan… achar alguma solução, Cão! … não podemos…

— Me ajude! – ele interrompeu – Me dê forças para acelerar meus raios, para…

— Isso é perigoso demais, Cão! E nem é certe… que dê certo!

— Faça!!! – o brasileiro gritou – Antes que Monus…

A mulher transparente fechou os olhos com força, lágrimas brotando dos olhos. Imediatamente, Cão sentiu um aperto no peito. Seu coração acelerou absurdamente, dolorosamente. A cabeça parecia explodir e rasgar-lhe a coluna, os olhos, os ouvidos. O grito que soltou foi tanto de dor quanto para se concentrar melhor. Desesperado, focalizou tudo nos raios que viajavam entre as matas Atlântica e Amazônica.

Se chegariam a tempo era outra história. Tudo que ele podia fazer, naquele momento, era tentar.

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