Capítulo 53 – Assassinato

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Ainda não conhece Golem? Então comece acessando AQUI.

Desesperado, Abeô tentava alcançar a bala que viajava para a testa de Aidan. O tempo ainda passava absurdamente devagar, tudo parecia congelado. Sua mente gritava para o braço zilhões de vezes: mais rápido! Precisava colocar pelo menos um dedo entre o projétil e a cabeça do ruivo, antes que fosse tarde demais. Mesmo assim, a bala veio infinitamente mais rápida que o africano. Assombrado, viu a ponta encostar na pele que tanto amava. Viu-a penetrar a tez, com as primeiras gotas de sangue espirrando em todas as direções. Se pelo menos conseguisse se mover mais rápido…

Então, com os milhões de olhos do piche, viu algo ainda mais rápido que a bala, mas só registrou o clarão. Apesar da percepção dilatada de tempo, Abeô sentiu como se apenas dois segundos se passassem enquanto o emaranhado de raízes de luz crescia do final da pista até a testa de Aidan. Foi o suficiente para ele reconhecer os raios e se desesperar ainda mais.

Aquilo era obra do mesmo demônio que tentara matar Aidan antes.

Os raios, entretanto, não tocaram em nada, nem no ruivo, nem na bala. Apenas cercaram a base do projétil, sem atingi-lo. Dali espiralaram para cima, desviando da cabeça do Assassino de Deuses. Rapidamente, inclinaram-se para o arpão que o avião disparara em direção ao golem, mergulharam no metal e escalaram o cabo de aço até o avião. E tão rápido quanto chegaram, desapareceram.

Ver aquilo fez o africano experimentar uma enxurrada de alívios, mais ainda quando percebeu que o projétil não mais penetrava a testa de Aidan. O espiralar da bala cessara e ela, mesmo que discretamente, começava a cair.

Talvez devido a baixar um pouco a guarda, Abeô assustou-se com a rapidez com que sua percepção de tempo voltava ao normal. Quase não conseguiu decidir o que fazer. Em lugar de enviar a mão para a frente da cabeça do ruivo, pulou para o mesmo. A intenção era derrubá-lo e cobri-lo, protegê-lo da muralha de espinhos elétricos que avançava para eles.

O tempo já parecia fluir normalmente quando, ao ver a bala cair, Aidan gritou um longo “não”. O brado foi quase simultâneo à grande explosão da aeronave no céu e à aterrissagem do africano sobre o ruivo. Este, rapidamente, reacendeu suas chamas enquanto os espinhos elétricos se enterravam no piche.

Em seguida, uma grande espiral de relâmpagos despencou sobre o encouraçado mais próximo. Ao mesmo tempo em que a máquina desmoronava, o demônio coberto de espinhos caiu sobre ela. Os trapos que antes lhe cobriam a nudez estavam em chamas. Nos chifres maiores, centenas de fissuras revelavam o brilho em brasa e a fumaça fétida no interior dos mesmos. A criatura estava de costas para o casal, voltado para os inimigos, o que, para Abeô era um ótimo sinal.

Enquanto o brasileiro gritava, um relâmpago surgiu nos espinhos de seus dedos, crescendo para dançar entre os demais encouraçados. O grito durou pelo menos dez segundos, período em que vários dos espinhos na mão e no braço do demônio explodiram. Quando acabou, o estranho caiu de joelhos, arfante, mão sobre os espinhos maiores que se estilhaçaram. Os encouraçados, por sua vez, desmoronaram.

Abeô estava mais do que perplexo. Por algum motivo, e sabe-se lá a que custo, o demônio não apenas salvara a vida de Aidan como também inutilizara as armas dos inimigos. O africano, entretanto, mal pôde especular sobre isso. Quando o encouraçado sob o brasileiro se mexeu, veio a certeza de que a batalha, infelizmente, estava longe de acabar.

Enquanto o piche fazia os espinhos elétricos dentro de si dissolverem, Abeô viu que a criatura de espinhos não conseguiu aterrissar em segurança quando o monstro inimigo se ergueu. O demônio caiu entre os namorados e a máquina, rosto para baixo, e o feixe de chifres que lhe substituía o olho esquerdo chocou-se contra o chão e partiu-se. Enquanto ele gritava e tentava cobrir o coto fumegante com a mão, com mais espinhos intactos, o encouraçado preparava um golpe para esmagá-lo. Foi quando, enquanto pulava para acertar um soco na grande máquina, o africano sentiu o piche vibrar, produzindo o som de centenas de gritos humanos.

O murro do golem perfurou a carcaça do inimigo. Enquanto seu punho penetrava a máquina, Abeô viu, através do piche, o rosto de um soldado ser esmagado pelo golpe. Aquilo o deixou profundamente enojado, desesperado e culpado. Tinha matado alguém, tirado uma vida com as próprias mãos, e nunca, apesar de toda sua força, isso tinha acontecido antes. Dentro da armadura, uma voz gritava, desesperada, o que provavelmente era o nome do rapaz. Mais um sinal de que, daquele momento em diante, ele era um criminoso. Um assassino.

Não houve tempo para continuar esse pensamento. À frente dele, todos os outros encouraçados se recuperavam. Atrás, Aidan se colocava em pé, em chamas, com a ferida na testa já cicatrizada. Também parecia surpreso, avaliando a situação do demônio e dos inimigos. Esses não tardaram a disparar uma chuva de projéteis explosivos contra eles. Rapidamente, Abeô atirou em direção às balas o encouraçado que tinha perfurado. O resultado foi uma onda de grandes explosões entre os adversários, movendo-se, junto com a vítima do golem, em direção aos outros soldados.

Os pilotos mais ágeis conseguiram parar de atirar e correr para longe do caminho da carcaça,  dois outros foram esmagados, enquanto vários foram despedaçados pelas explosões das balas contra a armadura do colega morto. Outro, apesar de toda blindagem, incendiou-se sob os potentes jatos das chamas de Aidan e três foram surpreendidos quando uma grande árvore, conduzida por relâmpagos, empurrou-os floresta adentro.

Vários outros, apesar do gigantesco porte das armaduras, foram usados como tacapes contra os companheiros de armas. Quando a batalha terminou, o estranho coberto de tocos de espinhos desfaleceu. Aidan apagou as chamas e, mesmo nu, correu para o brasileiro e começou a golpear-lhe pontos específicos entre os cacos de chifres.

— <Ele vai viver?> – indagou o africano assim que o piche desapareceu.

Aidan não respondeu. Continuou a golpear dezenas de pontos, repetidamente, até o sangue começar a lhe minar da ponta dos dedos. Isso o fez praguejar algo em sua língua materna e, em seguida, dizer em hausa:

— <Eu não posso mais tentar assim, ou ele vai ser contaminado. Preciso de dois pedaços de metal longos, mas sem ponta.>

O africano alcançou dois dos robustos arpões que os encouraçados tinham disparado, arrancou-lhes o cabo metálico e entregou-os ao namorado. Este, imediatamente, usou-os para voltar a golpear o demônio naqueles mesmos pontos, insistentemente, até que o mesmo voltou a respirar e o ruivo gritou para o namorado:

— Pare o primeiro carro que passar por aqui. Precisamos sair antes que os seguidores de Monus mandem reforços.

Enquanto o ruivo depositava areia sobre os tocos em brasa, Abeô correu para o lado da via por onde um par de faróis se aproximava. O motorista levou um susto e desviou para a contramão, mas o carro não freou nem derrapou. Apenas parou no meio da estrada, a poucos metros de Abeô. O mais estranho, entretanto, foi a atitude dos passageiros. Todos permaneciam estáticos, olhos vidrados, nas exatas posições em que estavam quando o motorista desviou. Foi quando o africano sentiu como se lava lhe inundasse o cérebro, ganhando seus braços e pernas.

Tomado pela dor, tudo que queria era apertar a cabeça entre as mãos e gritar. Entretanto, para seu espanto, as pernas lhe viraram o corpo. E mesmo contra sua vontade, o fizeram disparar para Aidan, com os punhos cerrados.

 

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