Capítulo 56 – Um mero golem

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Ainda não conhece Golem? Então comece acessando AQUI.

Salto. Vôo. A mata passava rápida embaixo dele e de Shanumi, que gritava assustada. Abeô repetia para si mesmo que não deixaria nada de mal acontecer a ela. Ele a protegeria, tanto na aterrissagem quanto na fuga daquele que o seduzira apenas para que ela lutasse contra os piores inimigos do planeta.

Foi então que as trevas lhe engoliram a visão. E antes que ele se desesperasse, a mulher loira surgiu à frente, voz grave e triste:

— <<Se você está vendo esta mensagem, é porque as coisas deram muito errado a ponto de você tentar impedir meu treinamento. Provavelmente você tem muitas perguntas. E eu tenho as principais respostas.>>

Não, Abeô não tinha perguntas, não quando estava a centenas de metros do chão com Shanumi nos braços, sem a mínima noção de como aterrisaria com ela. Gritou para a mulher:

—  <<Devolve minha visão! Agora!>>

A mulher pareceu ignorá-lo completamente. Continuou falando no mesmo tom, como se olhasse para alguém um pouco acima do africano:

— <<A Deusa da Vida queria lhe dar estas respostas pessoalmente, mas se você está tendo esta visão, é porque Aidan lhe pediu para me treinar. Então é bem possível que você já saiba o motivo de a Deusa não poder falar com você.>>

Abeô sentiu-se gelar. Aquela mulher… sabia sobre Aidan, sobre o treinamento, sobre… Aquela era…?

A mulher continuou:

— <<Aidan não explicou nada disso antes porque não sabia. Ou mesmo que tenha descoberto sozinho, não teve coragem. No fim das contas, ele também é vítima. E eu… até poderia transmitir-lhe as desculpas de Vida, se já conseguisse acessar os deuses no momento em que você tivesse… tiver essa visão. Afinal, eu concordei com essa… arapuca. Também lhe devo desculpas. Mesmo que eu ainda não o conheça, mesmo que hoje você seja só uma idéia, tenho certeza que, quando essa visão lhe for mostrada, você será alguém muito importante pra mim.>>

Algo desmoronou dentro de Abeô. Uma idéia? Ele era somente… uma idéia?

A mulher baixou os olhos e respirou fundo. Olhou para frente, novamente um pouco acima de Abeô, e falou:

— <<Eu sou Willa, a última… a penúltima encarnação da Assassina de Deuses do Oeste. Hoje sou a irmã que você planeja afastar de Aidan, para que não seja treinada. Esta visão foi gravada antes de nossa mãe estar grávida de você. A Deusa sabia que você teria todos os motivos do mundo para sentir-se desesperado, revoltado e, principalmente, pensar que Aidan lhe usou para se aproximar de mim. Mas a verdade é que… Ela lhe usou… Eu lhe usei… para me aproximar de Aidan.>>

Mesmo na visão, Abeô engasgou. Shanumi… sua irmãzinha… estava…?

Parte dele sabia do que ela falava. Outra parte não queria entender.

Antes que o africano assimilasse a informação, as trevas e a loira desapareceram rapidamente. Deram lugar à imagem de Aidan, nu, ajoelhado, ganchos com fios metálicos enterrados em cada vértebra, nas palmas das mãos, nas solas dos pés, embaixo do saco, no topo da cabeça e em mais cinco pontos do corpo. Ele gritava, tenso e trêmulo, como se levasse choques. Um grito carregado de tanta agonia que fez o africano ajoelhar-se à frente dele tentando romper os fios metálicos, os ganchos, fazer algo que o tirasse daquela situação. Contudo, não levou mais que segundos para perceber que aquelas imagens eran impalpáveis, o que não as tornou menos desesperadoras.  Restava-lhe apenas juntar-se ao longo grito de agonia,  a dor de ver tamanha dor em alguém que, apesar dos pesares, ele amava tanto.

Por um breve momento, o tatuado relaxou e Abeô pôde ouvir, ao redor deles, quase uma centena de homens e mulheres entoando, nas trevas, uma complexa mistura de cantos. Latim. Sons que, apesar de suaves, pareciam opressores, cortantes, afiados como navalhas, principalmente pela cacofonia irritante da combinação deles.

Ofegante, Abeô ouviu a voz de Willa cortar os cantos, embora ela não aparecesse:

— <<Em 1982, pela primeira vez, conseguiram destruir a alma de um Assassino de Deuses. Pela primeira vez conseguiram tecnologia poderosa o suficiente para fazer frente à nossa agilidade e nos manter presos. Naquela noite, Aidan e Ishtar resistiram o suficiente para que eu, que era a mais jovem, fugisse. Não contavam, é claro, que os magos tivessem desenvolvido um método para destruir a alma de um Assassino de Deuses.>>

Os choques em Aidan recomeçaram, e Abeô chegou a se encolher de agonia, chegando mesmo a evitar a cena. A voz continuou:

— <<Naquela noite já tinham destruído a alma da Assassina de Deuses do Norte. E teriam destruído a de Aidan também, exceto pelo fato de, apesar das drogas, ele ter ativado seus poderes.>>

Para alívio de Abeô, mesmo devagar, as chamas alaranjadas surgiram na pele do ruivo. Ao redor, os magos pareceram preocupados. Alguns se aproximaram, permitindo que o africano visse que vestiam mantos e capuzes brancos com bordados dourados. Mudaram o canto para algo mais rápido, intenso, nevascas brotando de suas mãos para o corpo tatuado.

Então Aidan explodiu. As chamas alaranjadas incineraram tudo que estivesse a menos de dois mil metros dele, o que definitivamente incluía seus inimigos. E quando eles desapareceram, a imagem de Aidan também se desfez. Em seu lugar surgiu Willa, ainda olhando para um pouco acima de Abeô enquanto dizia:

— <<Aidan ser autônomo quântico e Assassino de Deuses sempre foi um fator a mais em nossas vitórias. Só nesse dia, por exemplo, Monus, que você conhece como o deus cristão, investiu com quase todos os seus magos. Aidan carbonizou a todos e levou décadas para que reencarnassem e se reorganizassem. Monus, é claro, já odiava Aidan porque, além de ser Assassino de Deuses, autônomo quântico e imortal, é um homossexual. E agora, era também o único dos Assassinos de Deuses que não poderia ter a alma destruída. Foi por isso que Monus usou seus últimos recursos num segundo ataque, em 1983.>>

Novamente a imagem de Willa foi substituída, dessa vez por um castelo na encosta do mar, o céu noturno sem estrelas. Havia uma dúzia de pessoas doentes deitadas no chão, amontoadas umas sobre as outras, nuas. Algumas, amarradas, tentavam se libertar. Outras, sem cabelos, ainda tentavam se erguer, mas não tinham forças para tal. Havia também aquelas cujo corpo estava tão retorcido que não conseguiam sequer se arrastar. Ao redor dos prisioneiros, cerca de vinte homens e mulheres formavam um círculo. Vestiam os mantos brancos com detalhes dourados que Abeô, de imediato, reconheceu. Em frente a cada mago, havia uma espada japonesa no chão, apontada para os prisioneiros. Num primeiro momento, pareceu que seriam usadas contra as pessoas do centro, mas elas não saíram do lugar. Então retornou o mesmo coro de vozes suaves e cortantes. De novo o latim. Dessa vez, porém, Abeô de alguma forma entendia:

“Que tua depravação seja tua ruína

Que o teu sangue seja tua ruína

Que o teu poder caia por terra

Que tuas defesas caiam por terra.

Que em menos de treze luas completas

A tua doença seja completa

E te paralise completamente”

O fio de uma das espadas começou a minar sangue. Parecia sangue comum, mas logo se tornou uma bolha flutuante, pairando sobre os prisioneiros. Dela surgiram dezenas de tentáculos que, no que pareceram horas, perfuraram e rasgaram as pessoas do centro do círculo. No final do processo, a bolha de sangue quadriplicara de volume, ao que embebeu as lâminas das demais armas. Foi quando os magos despiram os mantos, revelando roupas militares por baixo. Tomaram as espadas e caminharam para o castelo.

A voz de Willa novamente foi ouvida:

— <<Eles decidiram atacar Aidan em nossa casa porque sabiam que ele não queimaria tantas lembranças sem um bom motivo. E enquanto ele não soubesse do ritual, esse motivo não existia.>>

Num piscar de olhos, a cena mudou. Aidan, nu, pulava da cama bem no momento em que um dos magos lhe cravaria a espada ensanguentada. Com a rapidez característica, o tatuado pulou para perto da cômoda, aparando o golpe de outro atacante e redirecionando-o para o primeiro. A lâmina atravessou o antebraço direito do mago como se fosse manteiga e fez com que soltasse sua espada. Ela nem tocou o chão: Aidan aparou-a no ar, dirigindo-a para rasgar a garganta do segundo atacante.

Nisso o quarto já estava inundado de magos e suas espadas. Por diversas vezes, as lâminas passaram a milímetros da pele do ruivo, mas pelo menos nos primeiros vinte segundos ele não se feriu. Foi quando o Assassino de Deuses percebeu que veios negros se espalhavam a partir das feridas de seus inimigos. E mais que depressa acendeu suas chamas, preenchendo o quarto com elas.

Apenas três magos escaparam para fora do cômodo, juntando-se a outros quatros que esperavam uma brecha para entrar no combate. No final do corredor, avistaram uma versão mais jovem de Willa, que não demorou a abater mais cinco deles. Os dois restantes não tiveram opção além de pular, pela janela, dezenas de metros até o mar.

— <<Mais tarde…>> – a imagem de Willa apareceu novamente – <<… quando encontramos com os deuses, nos contaram o ritual que magos de Monus tinham realizado, juntando as piores enfermidades conhecidas para contaminar Aidan. E o pior: os que ainda tinham escapado ainda possuíam as espadas capazes de infectar Aidan. Sabíamos que, com o tempo, os magos sobreviventes pensariam em uma maneira de contaminar à distância. Foi por isso que abandonamos o castelo e passamos a vagar pelo mundo, eu, Aidan e nosso mordomo Henwood. Por anos tivemos alguma tranquilidade. No entanto, quanto mais globalizado o mundo se tornava, mais difícil ficava nos escondermos.>>

Willa desapareceu e o cenário mudou. Agora tudo era um deserto pedregoso. Aidan e  Willa cavalgavam para fora de um vilarejo de casas redondas. Um homem branco e grisalho os seguia, provavelmente o tal Henwood. Quando se afastaram uns cem metros da última casa, sangue espirrou do ombro do ruivo. Rapidamente, a loira sacou uma pistola, virou-se e disparou uma única vez na direção de onde a bala viera. Uma pequena explosão de sangue foi vista, brevemente, na cobertura de uma das casas e em seguida os três cavalgaram para longe dali.

A imagem foi substituída por uma fogueira à noite, ao lado da qual Willa abria um corte na ferida do tatuado. Raízes negras eram bem visíveis na área perfurada, enquanto a voz da Assassina de Deuses do Oeste continuava a narrar:

— <<A partir daquele ponto, nossa prioridade foi tentar diferentes combinações de tratamento para HIV, esclerose e câncer para alcançar uma cura para a doença. Ninguém tinha uma ideia precisa de como a doença agiria, então o máximo que conseguimos foi desacelerá-la. Para conseguir os medicamentos e materiais de pesquisa tivemos que retornar à civilização, o que nos deixou mais vulneráveis.>>

Novamente a cena mudou, dessa vez com os três viajantes num quarto de hotel. Os Assassinos de Deuses vestiam jalecos brancos e manipulavam inúmeros frascos com sangue e outros líquidos. Já Henwood mantinha os olhos fixos na tela de um notebook, onde se distribuíam cenas noturnas dos viadutos e rodovias ao redor. Foi quando ele notou quatro grandes luzes se aproximando no céu e cercando o lugar. Aidan e Willa recolheram o que podiam, enquanto o grisalho juntava roupas e outros equipamentos em malas.

Mal o som dos helicópteros foi ouvido, bombas de gás atravessaram as janelas, Henwood desmaiou quase imediatamente. Aidan e Willa passaram a se comunicar por gestos apressados. Largaram os materiais da pesquisa, ela pegou duas metralhadoras, ele colocou no ombro o mordomo desmaiado e colocou uma pistola na cintura. Passaram juntos entre outros hóspedes desmaiados no corredor e correram para a saída.

Assim que saíram da fumaça, arfaram, com profundas e rápidas respirações. Enquanto faziam isso, os dois helicópteros mais próximos disparavam dezenas de arpões na direção deles, além de ganchos e redes. Estava claro que, mais do que matar Aidan e Willa, os inimigos queriam suas almas destruídas.

Enquanto corriam, a loira metralhava tudo que atiravam contra ela e Aidan, mas depois que  os outros dois helicópteros se juntaram ela não conseguiu mais atirar em tudo que os ameaçava. O ruivo se desviou dos primeiros arpões, mas logo teve que largar Henwood e correr. Usando os viadutos, conseguiram afastar-se um pouco dos helicópteros, mas não o suficiente. Um dos arpões atravessou o calcanhar de Aidan, erguendo-o no ar. Enquanto se esquivava de uma rede e dois arpões, Willa deu um tiro preciso contra o cabo que prendia o tatuado, mas foi atingida por um arpão no ombro esquerdo, que a içou. Feridos, ambos sabiam que era só questão de tempo até que um deles fosse levado.

Por um momento que pareceu uma eternidade, os olhares dos Assassinos de Deuses se cruzaram. Discretamente ela assentiu enquanto os lábios murmuraram “queime”. Aidan esboçou uma negativa, ao que ela apontou a metralhadora para a própria cabeça e disparou. Depois de gritar por quase dez segundos, o tatuado criou uma grande bolha de chamas ao redor de si, incinerando os corpos de Willa, dos inimigos e os helicópteros.

Quando as chamas minguaram, Willa reapareceu e murmurou::

— <<Quando morre um Assassino de Deuses sua alma volta para junto da Deusa da Vida, o que permite que ela aja em segredo por um tempo, e também que, após o Assassino de Deuses encarnar, ela não saiba o que foi feito no período. Isso porque não apenas nossas almas são blindadas contra a influência de magos, deuses e até autônomos telepatas. Nossos corpos também são, e esse é um processo que exige participação direta dela, que obviamente é a mais competente  quando se trata de moldar o que é vivo.>>

Abeô começava a dimensionar quem Aidan e Shanumi realmente eram. A vida de sua irmã era cercada de perigos e proteções muito antes de seu nascimento. Sentia-se quase ridículo de pensar que poderia protegê-la de tudo aquilo, mas também quase lamentava tê-la como irmå.

— <<Desta vez, no entanto, nós duas sabíamos que tudo estava por um fio. Aidan estava sozinho no mundo, e doente. Não sabíamos quanto tempo sobreviveria. Ao mesmo tempo, não podíamos arriscar a que eu continuasse vulnerável, ser capturada viva e ter minha alma destruída. Eu tinha que nascer com autonomia quântica, de preferência uma autonomia que, combinada ao fato de eu ser Assassina de Deuses, me permitisse viver milênios, como Aidan. Uma habilidade quântica que, caso eu fosse capturada, pudesse me libertar. E talvez algo que, um dia pudesse curar Aidan da doença.>>

Abeô sentiu seu coração disparar. Shanumi, caso capturada, teria poder para se libertar? Ela também viveria milênios? E, principalmente… cura?

Willa continuou:

— <<A deusa não demorou a achar o casal mais compatível do planeta, mas ainda precisaria reescrever parte do DNA das células reprodutivas deles até que eu alcançasse o poder que precisávamos. Aidan não teria todo esse tempo. Ele continuava fugitivo, conseguindo dinheiro e remédios com nossos aliados. Enquanto isso os servos de Monus estariam ganhando poder econômico, tecnológico e político, massacrando e reduzindo nossa rede de apoio. Era só questão de tempo até que ele ficasse sem remédios e a doença voltasse a evoluir. Além disso, as etnias mais ligadas a magia e desassociadas de Monus estavam ficando cada vez mais raras. No passado, eram os magos dessas etnias que identificavam os Assassinos de Deuses e os conduziam, em segurança, até o treinamento. Sem elas, levaria anos para que eu fosse encontrada. A combinação entre o atraso no meu nascimento, a falta de uma rede de magos para me localizar e o risco cada vez maior de Aidan morrer mais cedo fez com que pensássemos num artifício. Precisávamos, desesperadamente, de uma… isca, para que Aidan me encontrasse rapidamente e nossos inimigos não.>>

Algo pulou no peito do africano.

— <<Um Assassino de Deuses mantém poucas conexões telepáticas com a Teia Espiritual, com o inconsciente coletivo. E dessas conexões, nenhuma é tão poderosa quanto o amor e o sexo.>>

Não. Abeô não queria ouvir aquilo. Queria acordar. Queria se afastar de Willa, correr para longe dali, mas para cada nova direção que olhava, só via a ela, em seu monólogo:

— <<A deusa então parou o desenvolvimento das células reprodutivas que me gerariam e, neste exato instante, por alguns meses, está trabalhando nas células reprodutivas que gerarão você. Não podemos deixar que Aidan não se apaixone por você, nem que você não se apaixone por ele. Sua alma está sendo desenhada para atrair e ser atraída pela dele. Seus feromônios estão sendo desenhados para atraí-lo mesmo do outro lado do mundo, e seus receptores de feromônios lhe farão ter prazer só em estar a cem metros dele. Seu corpo está sendo milimetricamente pensado para atraí-lo, e seu cérebro para considerá-lo atraente. Até sua autonomia quântica está sendo desenhada para sobreviver aos poderes dele, aos ataques poderosos a que Assassinos de Deuses estão sujeitos, e para suportar os mesmos ambientes que Aidan suporta.>>

Abeô surtou. Ele era um projeto de ciências. Nada do que sentira nos últimos meses era real. Nada do que ele era era real. Ele próprio não era mais que uma idéia. Uma peça no joguete dos deuses para que sua irmã fosse treinada. Ele nem mesmo tivera escolha quanto a se apaixonar ou não.

O africano caiu de joelhos, fechou os olhos, ouvidos e gritou o mais forte que pôde, mas ainda via e ouvia Willa falar, triste:

— <<Sinto muito, a deusa Vida sente muito por isso. Sentimos muito porque você provavelmente vai viver os prazeres mais… completos do mundo para, muito provavelmente, perdê-los em seguida. Estamos gravando essas imagens em seu DNA, para que você as veja caso saiba quem sou e decida que eu não seja treinada. Sabemos que pode parecer que Aidan o usou, mas ele nunca soube de nada, não havia como ele saber de algo até me encontrar.>>

Abeô chorava. Sentia nojo de si mesmo. Sentia raiva de tudo aquilo, raiva da irmã, raiva de, ao saber que Aidan não tinha culpa daquilo, não conseguir ter raiva dele. E desespero, porque sabia que as chances de encontrar alguém que o completasse como Aidan eram de mínimas a nulas. Quando descobrira a doença do ruivo, o que mais temia era nunca mais encontrar alguém, depois que Aidan morresse, que fosse uma sombra do que o ruivo era.

Pelo menos antes era um receio. Agora era certeza.

— <<Tudo o que lhe mostramos explica por que estamos fazendo isso. Você pode entender agora um pouco de tudo o que aconteceu, o que está em jogo e porque é vital que Aidan me treine. Por favor, não deixe que o seu medo por minha aparente fragilidade me impeçam de manter o mundo seguro. Não deixe que sua revolta por ter sido usado me afastem de…>>

Willa parou, triste e pensativa. Suspirou, enxugou uma lágrima e continuou:

— <<A verdade é que ninguém pode imaginar o que você passa agora. Mas… irmão… pense não só por mim. Pense também em Aidan! Pense por sua causa também! O fato de o que você viveu com ele estar escrito esse tempo todo em sua carne, sangue e alma… realmente faz o que vocês sentiram um pelo outro menos real?  Fará de vocês menos infelizes caso se separem?>>

Abeô ergueu-se devagar. O que ela falava fazia todo sentido do mundo, não queria acreditar em mais nada. Não quando tinha sido enganado por tanto tempo.

Então, lentamente, a imagem de Willa se desfez, enquanto murmurava:

— <<Por favor, irmão. Não torne sua vida mais ainda infeliz do que nós já fizemos.>>

Quase no mesmo instante, Abeô voltou à realidade física. Estava meio confuso, mas percebeu que ainda tinha Shanumi nos braços e que em menos de dois segundos estaria no solo.

Mesmo desajeitadamente, ele pousou em segurança com a irmã. Colocou-a no chão, ajoelhou-se e olhou bem para aquele par de grandes olhos negros e assustados.

Ao longe, Abeô ouviu a voz de Aidan chamar por ele. Um nó esmagou sua garganta e peito. Shanumi perguntou para ele, chorosa:

— <Você está com raiva de mim, maninho?>

Só então o africano percebeu quão desgostoso seu rosto estava. Havia uma revolta contra alguém dentro daquela menina, mas a maneira como ela perguntou doeu dentro do africano. Quase como quando Aidan, agora mais perto, chamava desesperado por ele.

— <<Desculpe!>> – o africano gritou em inglês – <<Estamos aqui!>>

Enquanto novamente pegava Shanumi no colo perguntou-se, silenciosamente, se não o tinham desenhado para amar a ela tanto quanto ao ruivo. Em seguida Aidan chegou, olhos muito vermelhos e rosto molhado. Vê-lo fez o africano pensar que, no fim das contas, a decisão de ficar colocava também a vida dele em risco. E sua existência como boneco de carne, como um verdadeiro golem, que já fora programada para ser infeliz desde o começo, dava mais um passo em direção ao desespero total.

Muito mais por egoísmo do que por submissão à vontade dos deuses que o tinham desenhado, o africano estendeu a mão livre convidando Aidan para junto de si. O gesto surpreendeu o tatuado, que deu dois passos lentos em direção ao negro, avaliando a situação. Então, correu, abraçou e beijou o africano com fúria, como se fosse a última vez que o tocasse, como se os lábios dele fossem a última gota de água do deserto após três dias de sede.

Abeô também se sentiu outro nesse beijo. Seu corpo aderiu imediatamente, e ele colou a língua, lábios, peito, barriga e o sexo aos de Aidan. Abraçou-o, apertou-o como se buscasse ter certeza que aqueles ossos, músculos e aquela pele quente realmente existiam. E sentindo o corpo do tatuado colado ao seu, a língua do tatuado colada à sua, todo o resto se dissolvia. Olhos fechados, trevas e silêncio absoluto ao redor. Só tato, cheiros, paladar. A mata, os problemas, as mágoas, dores, deuses, nada tinha importância e recolhia-se, humildemente, à sua insignificância.

Até que Abeô  ouviu uma menina gritar. E em um dos seus braços sentiu algo, ou alguém, se debater. Então a terra tremeu, erguendo-os. O africano sentiu, no braço e no peito, uma ardência, um calor que jamais imaginaria possível. Isso fez com que abrisse os olhos e voltasse rapidamente à realidade. E o que viu e ouviu fez seu coração ir à boca.

Todos os objetos sólidos ao redor de Shanumi, inclusive a própria pele de Abeô, pareciam se dissolver e fervilhar em todas as direções. Finíssimos filamentos da carne dele, além de terra, galhos e folhas se condensavam numa armação de metal vivo ao redor dela, erguendo-a do chão. E enquanto empurrava algo invisível em direção a Aidan, ela gritou:

— <Eu vou matar você, seu imundo! Você não vai arrastar meu irmão para o inferno!>

E antes que Abeô esboçasse qualquer reação, espinhos metálicos brotaram do chão e atravessaram o corpo do ruivo.

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