Era uma vez…

Vocês fazem ideia das infinitas possibilidades que este começo de frase pode levar? Deve ser como um papel em branco para um desenhista. O poder da folha em branco.

O que será que vem logo a seguir? Será a história de quem? Ou do que? No presente, passado ou futuro? Uma comédia, uma tragédia? Uma aventura, um horror sobrenatural ou alienígena? Ou uma aventura tragicomédia de horror sobrenatural alienígena, tudo junto e misturado, com um toque queer. 😀

Eu adoro ler estas histórias, mas antes achava muito chato. Começava o primeiro parágrafo, dormia no segundo e acordava no terceiro, sem saber onde estava. Quantas histórias eu perdi por falta do hábito de ler… Você não precisa ler tudo de uma vez. Duas, ou três folhas por dia, e logo você termina cem, duzentas, trezentas páginas e fica com saudade. Bem. Eu fico. Riu, choro, torço, fico tenso e com medo algumas vezes. E é bom demais.

Nesta coluna você pode conhecer um pouco sobre esse universo, ou multiverso, dependendo do livro. Irei escrever um pouco de como foi minha experiência de ler alguns deles. O que senti, pensei e achei de ler esse ou aquele livro, que por um motivo ou outro cruzou meu caminho. Como gosto de muita coisa, mas não de tudo, teremos de ficção até ciência. Alguns são voltados para o público queer. A maioria não, mas depende muito do ponto de vista.

Espero que vocês apreciem e, quem sabe, se já não leem, que comecem e descubram um mundo novo, ou dois, ou três…

No refeitório do primeiro andar do silo, as paredes são telas que mostram o exterior para seus habitantes, como janelas. As imagens sempre mostram os morros ao redor dos sensores na superfície, que escondem a maior parte de um mundo estéril e tóxico. Nestes montes, pequenos volumes de areia escondem os cadáveres daqueles que tentaram transpor. Estes montes mal podem ser vistos devido à imagem difusa projetada nas telas. Já faz tempo que os sensores foram limpos e as tempestades de areia da atmosfera cáustica prejudicam a única visão do antigo mundo. Todo o silo anseia pela próxima “limpeza” onde uma alma será expulsa, fará a limpeza dos sensores e tentará prosseguir através dos morros, até seu traje protetor se desfazer e ele virar mais um monte junto aos outros montes.

Silo é o primeiro livro de Hugh Howey e faz parte de uma série. Esta história nasceu de um conto que corresponde à primeira parte do livro, que teve seu universo expandido até se tornar as 512 páginas divididas em cinco capítulos e posteriormente nos outros livros da série. Descrevendo uma sociedade presa em um silo de 140 andares, abaixo da superfície de uma futura Terra pós-apocalíptica, a história tem como protagonista a mecânica Juliette. Mulher inteligente e pró ativa que estava quieta no canto dela até fazerem a maior besteira daquele universo, a colocarem como delegada. A partir daí ela vai tentando entender as coisas estranhas que acontecem no silo, em seu passado e em uma série de mortes. Mas o Silo não gosta de quem procura entender as coisas.

E como foi a experiência de ler Silo?

Esperei que, em um livro com esse background, o autor explorasse a sensação claustrofobia, mas, apesar de ter várias oportunidades, não o fez. O medo de morrer preso em um lugar, apenas consigo e seus pensamentos, esperando lentamente o inevitável fim, não é utilizada. Muitas vezes as personagem vão morrer muito antes de qualquer pensamento a respeito. Tive esta expectativa porque, afinal, estão enterrados na terra, como em um caixão. Uma pena. A utilização disto daria um tempero dramático a mais que daria mais originalidade a obra.

Em todo caso, o mundo criado por Hugh é muito rico. Muitos aspectos são abordados, como as regras que mantém este silo autossustentável funcionando, a reciclagem de tudo, a loteria para se ter filhos, a sentença de morte que é a limpeza dos sensores no exterior, as classes sociais e preconceitos baseados no andar onde se vive. Existem alguns pontos estranhos como, porque que eles usam mais cartas que e-mail, porque o silo não possui um elevador, entre outros pontos, mas tudo tem um motivo para ser do jeito que é. Então, apesar de acompanharmos Juliette a partir do terceiro capítulo, vamos descobrindo como é nascer, viver e morrer em um mundo limitado e, com ela, vamos descobrindo o porquê de ser assim.

Cada capítulo tem uma forma diferente de contar a história. No primeiro temos o conto focado em uma limpeza. As partes deste capítulo são intercaladas com flashbacks de três anos atrás da vida de Holston, antes de ser “condenado” a realizar a limpeza. No capítulo dois temos a decida da prefeita Jahns e o xerife Marnes, do primeiro andar até a Mecânica, por volta do 133º andar. Cada parte serve para apresentar os vários andares do Silo e explicar um pouco da função e características que diferem um andar do outro e das pessoas que vivem nestes andares nessa cultura escalar. Cada capítulo do livro é dividido em partes bem pequenas, o que achei fantástico. Como leio antes de dormir, parar no meio de um capítulo é ruim, mas como cada um tem entre três a dez páginas, dá para refletir se aguentava mais um pouco antes de fechar livro. Gostaria muito que todos fosse assim.

Mas e a história? Até o terceiro capítulo somos apresentados ao mundo e as personagens. A partir dele a história segue a protagonista, começando pelo final! Isto mesmo, e não é qualquer final, é uma conclusão de explodir a cabeça. Fui tomado pela curiosidade insana de descobrir como foi que tudo descambou para aquela situação, uma péssima situação. Parabéns para o autor. Não sei se essa variação na forma de contar foi proposital, já que este foi seu primeiro livro, mas esse jogo utilizado na linearidade do enredo foi genial. Não vou contar para não entregar a surpresa, me limitarei apenas a descrever como foi a experiência de ler, mas acredite, o inicio do capítulo é uma tapa na cara quando você não espera.

A partir daí, a situação vai piorando e piorando. Achei meio exagerado. São planos e mais planos que dão errado enquanto as páginas vão acabando e novos problemas vão surgindo. Quando faltavam poucas páginas para o final fiquei preocupado que fosse um daqueles finais milagrosos onde tudo se encaixava por mágica e o dia era salvo em três páginas. Enganei-me redondamente, poderia até dizer cilindricamente. A história me conduziu para o agora de Juliette cheio de problemas, mas o que estava em jogo era muito mais, e estava escrito na capa o tempo todo. “Mentiras podem ser fatais: a verdade também”.

O livro não se tratava da descrição deste universo limitado e de sua sociedade, não se tratava de perseverar enquanto tudo, e algo mais, dá errado, muito menos de Juliette e sua busca pela verdade. O livro mostra uma situação em que a ignorância e a obediência cega podem ser a única proteção contra a extinção. Temos então uma reviravolta de uma reviravolta e tudo simplesmente faz sentido e não me senti enganado ou feito de bobo pelo autor. Apenas não atentei para o que era mais importante. Algo que sempre defendi, que as pessoas deviam saber, foi transformado em uma situação em que a informação poderia seja mortal. E não para uma pessoa, mas para todas.

Para finalizar o livro entrega a primeira parte do primeiro capítulo da sequência. Que se passa… Acredito eu, 300 a 400 anos antes, em 2049, quando o mundo ainda era mundo e o Silo ainda estava sendo planejado. Infelizmente não me deixou com vontade de prosseguir. Achei que o que o que me foi dito sobre o exterior era o suficiente e não preciso ler mais 500 páginas sobre. O que eu queria era continuar a conhecer aquela sociedade e a nova situação em que se encontram. O que fazer quando a ignorância é uma benção, mas agora todos sabem? Não dá para voltar atrás. Não dá para esquecer.

Valeu a pena ler Silo?

Sim! Como podemos ir e vir livremente sob um céu de um azul lindíssimo, pensar sobre viver em um mundo limitado, onde tudo e todos que você conhece estão no mesmo lugar, foi novo para mim. Mas o livro foi mais além. Me fez refletir em vários aspectos, principalmente sobre que saber das coisa é bom, mas não saber também pode ser. O universo construído por Howey foi bem feito, as personagens também. Existem brechas? Sim, claro, mas recomendo a leitura com certeza.

Silo.
Autor: Hugh Howey.
Editora: Intrínseca, 2014.
ISBN: 978-85-8057-473-9