…Mesmo que mais ninguém cante junto.

Woof, Berds!

Bem-vindos à republicação da primeira “Oi, James?” – SIM, esse post faz parte da nossa série BERD TO THE FUTURE, onde revisitamos alguma coluna ou matéria particularmente interessante ou bem recebida do passado do Bear Nerd.

A “Oi, James?” é uma coluna aperiódica cujo propósito era ser meu palanque pessoal pra tagarelar sobre qualquer assunto que me desse na telha. Sintam-se livres pra comentar, discordar, debater ou simplesmente dizer aquele sonoro “MEU CU!”. 😉

Então, sem mais delongas, vamos falar de uma delicada atração. Ou melhor, “Delicada Atração” (Beautiful Thing, Inglaterra, 1996).

“Delicada Atração” é um filme inglês que conta a história do menino Jamie e do seu relacionamento com o vizinho, e colega de escola, Ste.  Ambos são adolescentes de famílias de classe trabalhadora, moradores do subúrbio londrino.  O filme mostra o despertar de Jamie para sua sexualidade e o nascimento de sua relação amorosa com Ste. E é LINDO. Não, sério, é lindo MESMO.

“Delicada Atração” é um filme inglês que conta a história do menino Jamie e do seu relacionamento com o vizinho, e colega de escola, Ste.  Ambos são adolescentes de famílias de classe trabalhadora, moradores do subúrbio londrino.  O filme mostra o despertar de Jamie para sua sexualidade e o nascimento de sua relação amorosa com Ste. E é LINDO. Não, sério, é lindo MESMO.

Na época de seu lançamento,”Beautiful Thing” foi muito comentado e elogiado, por que mostrava uma história de amor homossexual  entre dois adolescentes de uma forma muito bonita, positiva e sensível, sem apelar pra vulgaridade nem pra tragédia.  Mas o objetivo dessa coluna não é exatamente fazer uma resenha do filme – Quero falar da minha relação com ele (dá pra achar inteiro no YouTube, aliás, e legendado. Ficadica).

Assisti “Delicada Atração” logo que entrei na faculdade. Pela data de lançamento do filme, eu devia ter uns 18 ou 19 anos (faz teeeeeeeeeeeempo). Foi exibido num festival de filmes ingleses de uma escola de idiomas de Brasília, e devo dizer que foi uma REVELAÇÃO.

Nesse período da minha vida, eu já estava certo e seguro de que era gay, e dava meus primeiros passos desajeitados pra fora do armário. Não posso descrever o quanto me fez bem ver, ali na tela, a história de amor de jovens como eu, que se beijavam, se tocavam e, pasmem, tinham um final feliz! De repente, alguém me dizia que, olha aí, você também pode viver uma história de amor, como qualquer outro jovem que você conhece.

A cena final (olha o spoiler!), em que Jamie e Ste dançam no pátio do condomínio ao som de “Dream a Little Dream of Me”, de Mama Cass Elliott, me encheu, ENCHEU MESMO, de alegria. Nossa, lembro que cacei essa música desesperadamente e aouvi à exaustão. Lembrem-se, crianças, internet (ainda mais de banda larga), troca de arquivos e Google eram coisa de ficção científica nessa época, então foi tudo no método “passar-horas-nos-sebos-da-cidade” pra procurar música. Caso você queira ver, aqui a cena:

E, vejam só, assistir a essa mesma cena aos 35 anos de idade, quando escrevi a coluna, provocou o mesmo efeito. Aliás, talvez até mais forte, por ter a maturidade e a experiência pra perceber o quanto significou pro James em 1996 assistir a dois meninos dançando apaixonados.

Aliás, a música de Mama Cass é um ponto importante no filme, tanto por ser parte predominante da trilha sonora quanto por sua influência na personagem da menina Leah, vizinha dos protagonistas.

“Dream a Little Dream of Me” é linda e muito impactante no contexto em que aparece no filme, mas o que me impressionou hoje, revendo o filme, foi o uso de “Make Your Own Kind of Music”, que dá título a essa coluna.

“Você tem que fazer a sua própria música,

Cantar sua própria canção especial

Fazer sua própria música

Mesmo que ninguém mais cante junto.”

A música toca numa cena em que Jamie e Ste, exultantes com sua primeira ida a um pub gay, tem um apaixonado momento no caminho de volta pra casa. Eu me lembrava da cena (me fez sorrir incontrolavelmente durante a exibição do filme), mas não da música. E em que pese ser uma música muito agradável de se ouvir, ela é poderosíssima no contexto do filme, JUSTAMENTE por sua letra, e o que ela representa pra aqueles personagens e pra nós, público.

A gente passa a vida inteira sendo condicionado a seguir um modelo tradicional engessado de relacionamento e comportamento e esquece, ou nunca aprende, a “fazer a própria música”. E nos importamos demasiadamente se as pessoas não estão cantando junto.

E então, chegamos em 2012, com um James barbado, em total “modo urso”, 35 anos de idade na cara, se emocionando de novo com uma historinha de amor adolescente, só que muito mais poderosa por que agora ele pode entender as letras das músicas e já viveu o que aqueles meninos na tela estão vivendo.

Pra fechar – ESSA é a razão pela qual eu fico incrivelmente puto sempre que alguém vem chiar que reclamamos demais por não ver beijos gays em novelas brasileiras. Por que essa é uma reclamação completamente válida. Como os James moleques de 2012 vão aprender a fazer a própria música, se ninguém mostra pra eles que isso é possível? A cultura popular é extremamente importante na formação das pessoas, e o que é mais representativo da cultura popular no Brasil do que as novelas? Não seria extremamente recompensador a um jovem gay ver, em pleno horário nobre, pessoas como ele vivendo seus amores, seus dramas, suas vidas da mesma maneira que qualquer outro personagem?

Melhor que isso, claro, seriam exemplos na vida real de homossexuais vivendo abertamente suas vidas, mas isso é assunto pra uma outra coluna!

Até lá, espero que vocês tenham gostado, e que todos se sintam encorajados a fazer suas próprias canções!

Abraço!

Ah, aqui um clipe de Mama Cass cantando “Make Your Own Kind of Music”. Curte aí:


Este artigo foi publicado originalmente em 21 de maio de 2012
e faz parte da iniciativa Berd to the Future, onde atualizamos
os melhores artigos que passaram por aqui no Bear Nerd!