Este é um post feito pelo nosso leitor Leandro Sá. Se você quiser escrever um também é só clicar aqui!


Uma pequena discussão sobre a homofobia no mundo nerd

Recentemente, me deparei, por uma feliz coincidência, com um vídeo que está na minha mente até agora por conseguir ser crítico e divertido ao mesmo tempo. Trata-se de “Superheroes can’t be gays” que dá título a este texto. No clipe um casal de heróis gays discute os problemas de sua relação com uma série de alfinetadas ao moralismo da sociedade como: “Super-heróis não podem ser gays/ Essa é uma regra que escreveram”, “Super-heróis não podem ser gays/ Os quadrinhos sempre me disseram/ Quem eu gostaria de ser” e “Super-heróis não podem ser gays/ Assim como na Bíblia/ Quadrinhos são realmente rigorosos” são algumas das frases que compõem a música cantada durante o clipe. A partir daí comecei a pensar, o quanto desse pensamento ainda existe no mundo nerd?

Ver dois heróis do mesmo sexo se relacionando ainda não é algo muito bem visto pelos leitores de quadrinhos. Uma prova disso pode ser percebida por meio da recepção de algumas pessoas à notícia divulgada pela Marvel, em 2012, a respeito do casamento do mutante Estrela Polar. O personagem, que é homossexual assumido, vai protagonizar um enlace conjugal com o seu namorado Kyle. E por mais que muitas pessoas tenham se posicionado favoravelmente à proposta, ela também gerou uma série de comentários negativos em diversos sites de cultura pop. Li afirmações como: “Estão querendo nos fazer engolir isso como se fosse normal”; “Ninguém que tenha formação moral é obrigado a conviver com isso”; “Estão baitolando a revista” e muitos outros nesse nível.

Tais comentários me intrigaram, pois estamos falando de fãs dos “X-men”, HQ que aborda a discriminação de maneira bem contundente. Inclusive, já vimos diversas metáforas relacionando a falta de aceitação sofrida pelos mutantes com o que ocorre com homossexuais, principalmente nos filmes da equipe dirigidos por Bryan Singer, também assumido.

Outro ambiente dominado por nerds onde são explicitadas piadas homofóbicas são os podcasts. Claro que muitos deles demonstram um respeito grande por nós, mas não dá para ignorar os tantos que soltam algumas pérolas da maneira mais natural possível. Já ouvi diversas referências pejorativas à homossexualidade que soam para mim como desnecessárias, mas para quem as fala como a piada mais engraçada do mundo. Não quero aqui ser aquele chato que considera qualquer brincadeira que envolva o termo “gay” uma agressão. Posso até citar dois exemplos de programas que eu acompanho e são totalmente respeitosos, até mesmo nas piadas. São eles o Rapaduracast – site e podcast sobre cinema – que eventualmente comentam sobre seus amigos homossexuais (inclusive, eles fizeram uma entrevista com o organizador do festival Div.A) e o Omelete – videocast sobre cultura pop – que tem, inclusive um episódio antigo, engraçadíssimo, que traz os três integrantes homens (todos heterossexuais) travestidos e falando sobre os melhores filmes com temática gay. Logo, o que tende a me incomodar são as piadas depreciativas.

Enfim, essas foram algumas reflexões que o simples clipe me trouxe. Numa época em que ser nerd parece ter se tornado moda e a homofobia nunca foi tão debatida, seria iminente o surgimento de um vídeo como esse. Não me lembro de ter visto uma crítica que questionasse tão bem a relação dos super-heróis com a afirmação de uma heteronormatividade, principalmente dessa forma, simultaneamente, ácida e cômica. E daí eu me pergunto: Até quando os heróis não poderão ser gays?

Super-heróis não podem ser gays

Em pé nos telhado noite após noite
Meu rosto em uma máscara e meu uniforme apertado
Olhando para todas as pessoas nesta cidade conturbada
Mas há toda uma outra questão que me deixa para baixo porque

Quando você está lutando eu recebo toda a tensão
Eu sinto um formigamento engraçado no meu sentido de aranha
Mas uma antiga regra não deixa nenhuma possibilidade
Com grandes poderes vêm responsabilidades hétero

Super-heróis não podem ser gays
Temos que enfrentar nossos impulsos
Salvar o  próximo
Mas sem tocá-lo, mas sem tocá-lo

Super-heróis não podem ser gays
Essa é uma regra que escreveram
E isso meio que suga
Mas não pau, porque isso seria gay

Derrubar bandidos, somos as luzes desta cidade
Mas tudo que eu realmente quero é o que está dentro de suas calças
Essa é a luta mais difícil, a que eu nunca vou vencer
Eu quero lamber seu queixo másculo de cabeça para baixo

Leve-me à Lua e deixe-me brincar entre as estrelas
Deixe-me ver o que é o amor com poderes sobre-humanos
Mas você sabe, Mary Jane, que nós nunca poderemos ser isso
Porque um herói e um gayrói (“queero”) não são a mesma coisa e, assim…

Super-heróis não podem ser gays
Temos de lutar contra os vilões
Sempre vigilantes
 “Vigilante” não é um termo latino para gay

Super-heróis não podem ser gays
Pegar quem é fodão
Jogá-los na cadeia
Eu não consigo parar de pensar fodão

Eu nunca pensei que você e eu
Teríamos um caso com triplas camadas de sigilo
Porque durante o dia eu sou um cara
Mas à noite eu posso voar

E eu só percebi que estou apaixonado por um cara, e ele é um super-herói como eu
É por isso que temos que fazer isso com calma
Então eu vou até o quarto e quando eu abrir a porta eu vou…
Oh cara, você é tão sexy e sensual

Kryptonita em suas calças?
Não, você está feliz em me ver.
O groove está ligado e é a hora certa
Deixe-me acender as velas com a minha visão a laser

Eu não poderia pedir por um dia mais perfeito
O herói em minhas calças está subindo e indo para fora
E eu estou pronto para mais

Super-heróis não podem ser gays
Os quadrinhos sempre me disseram
Quem eu gostaria de ser
O que houve com “trancar a porta”?
Super-heróis não podem ser gays

O mundo está quebrando em mim
E isso é meio… agressivo
Não é o que você está pensando, ele é meu irmão.
Cala a boca, você está fazendo o pior.

Super-heróis não podem ser gays
Assim como na Bíblia
Quadrinhos são realmente rigorosos
É tenso, mas não do jeito certo

Super-heróis não podem ser gays
Vivendo em negação
Vestido como Boney M
Eu realmente gosto da banda, cara

Super-heróis não podem ser gays
Temos que enfrentar nossos impulsos
Salvar o  próximo
Mas sem tocá-lo, mas sem tocá-lo

Super-heróis não podem ser gays
Essa é uma regra que escreveram
E isso meio que suga
Mas não pau, porque isso seria gay

Super-heróis não podem ser gays
Super-heróis não podem ser gays
Super-heróis não podem ser gays


Sobre o autor:

Leandro Sá tem 29 anos, é professor de literatura, sempre foi nerd e é dependente de literatura, cinema, música e quadrinhos.


Este artigo foi publicado originalmente em 15 de Maio de 2012
e faz parte da iniciativa Berd to the Future, onde atualizamos
os melhores artigos que passaram por aqui no Bear Nerd!

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Post do Leitor

  • Olha, Leandro mandou MUITO bem, hein? EXCELENTE artigo, e o vídeo é ótimo, fizeram uma bela crítica de maneira bem-humorada e muito inteligente!

    • Leandro Sá

      Obrigado, James! E agradeço por publicarem também. Eu assisti ao vídeo e pensei na hora em escrever algo para o site. fico feliz que você tenha gostado.

  • bruno felipe

    tentei e tentei bolar um comentário mas o impacto dessa leitura foi grande em min … não devia me surpreender principalmente depois de saber que existem muitos nerds sexistas … mas nunca vou deixar de entrar em choque quando me decepcionar com o meio que eu to inserido .. mas pode ter certeza de uma coisa … SEU POST FOI GENIAL PARABÉNS =)

    • Leandro Sá

      Obrigado, Bruno! Infelizmente, existem muitos nerds que não conseguem lidar com a diversidade. Na época em que me assumi para os amigos, um deles (aliás, o que eu considerava meu melhor amigo de infância) disse que não poderíamos mais nos ver porque estávamos muito “diferentes”, o engraçado é que líamos as mesmas HQs, assistíamos os mesmos filmes e jogávamos RPG juntos. Na época fiquei muito triste, mas hoje em dia vejo que me livrei de conviver com um idiota, que deixava de ser amigo de alguém por causa da sexualidade.

  • Edu

    Numa das primeiras OmeteTVs o pessoal zoa o Marcelo Fotlani por um email onde um carinha dizia que ele era um tesão (ou algo assim). Numa boa. E o carinha era eu, rsrs

    • Leandro Sá

      É, eles recebem direto e-mails de nerds gays e tratam com a mesma naturalidade,as brincadeiras nunca são depreciativas.

      OBS: Acho os três bem charmosos, cada um no seu estilo,rs.

    • Porra, e não é que esse Marcelo Forlani é fofinho mesmo?! Uia.
      PAS.SA.DA. 😀

  • Edu

    Numa das primeiras OmeteTVs o pessoal zoa o Marcelo Forlani por um email onde um carinha dizia que ele era um tesão (ou algo assim). Numa boa. E o carinha era eu, rsrs

  • Valdir

    Post bacana… mas quem participa de qualquer fórum nerd ou geek já viu que de fato os nerds são muito sexistas. Mesmo em fóruns mais gay friendly, sempre tem.

    • Muito bom seu texto Leandro. Se existe uma única coisa boa com a popularização da cultura nerd é a possibilidade de discussões abertas sobre temas que antes só ecoavam em nosso microverso. Um outro exemplo bem interessante que houve recentemente foi a declaração na revista Playboy americana do escritor Grant Morrison sobre considerar que o conceito do Batman como sendo um conceito gay, o que não é novidade. O que me chamou atenção é que, mesmo ele tendo separado o conceito do personagem do personagem fictício em sí, a reação mundial foi a de que finalmente o Batman tinha saído do armário.
      Corroborado, lógico, pela cobertura da imprensa brasileira que SEMPRE deixa a desejar. Escândalos a aparte, o que se viu foram reações bem próximas das relacionadas ao casamento do Estrela Polar, pessoas ofendidas que alguém tenha insinuado que o herói da sua infância possa, entre um sopapo e outro, amar um outro homem. Como se todas as vezes que ele salvou a terra e Gotham simplesmente deixassem de existir! Eu acho que North Star tem mais é que comemorar. De todos, ele foi o que teve a pior saída do armário da história, deixou até de ser considerado humano! Seu caminho desde sua criação até hoje pode ser comparada a qualquer saída de armário que um de nós pode sofrer, mas como sendo um personagem fictício, encarnou a visão que cada escritor que passou pelo personagem nutre sobre a homoafetividade. Estrela Polar já não é mais um super-herói, é um símbolo de luta e aceitação. Bom casamento querido!

      • Pois é, Limão, a gente inclusive comentou sobre o “caso” Morrison/Batman num BN News passado. CLARO que o nível da “cobertura jornalística” no Brasil, mesmo da imprensa “especializada” foi baixíssimo, mas é sempre impressionante a quantidade de reações negativas que esse tipo de declaração provoca.

        Acho que é por isso mesmo que a gente tem que mostrar a cara, pra provar que tem nerd de tudo que é tipo e, sim, de todas as orientações sexuais.

        Abração!
        J.

      • Leandro Sá

        Parece que as Comic Shops lá fora organizarão eventos para celebrar o casamento. Bem que podia ter algo assim aqui também. Eu ia fazer questão de aparecer com traje de gala.

  • Alex machado

    Muito bom ter apresentado esse preconceito no meio nerd, e eu acredito que não é só no meio de comics de heróis que temos esse preconceito,bom exemplo disso foi as muitas piadas homofobicas com Cdz Omega,povo falando que aviadaram os personagens,sem se dá o prazer de ver a história(que até agora esta sendo bem bacana…)outro exemplo disso foi com uma doa animes mais legais desta temporada que é sakamichi no apollonno ,por causa do clima de bromances(eu prefiro homo- afetividade)entre os protagonistas principais , muita gente nem quis ver olha, que é anime não é para o público gay ou bl,essas cena são até descartada ,nos capítulos seqüentes ,mesmo assim o anime é ótimo…..

    Link de sakimichu apollonno http://www.youtube.com/watch?v=_GrtjAW5FTE

  • Texto muito bom Leandro, parabéns.

    Também já passei por isso de caras que eu achava que eram meus amigos deixarem de falar comigo quando contei que era gay, ao mesmo tempo tive gratas surpresas de descobrir que pessoas que eu achava que não aceitariam levaram numa boa.

    Quanto ao casamento do Estrela Polar, eu acho legal e tal, mas quem é esse tal de Kyle? Acho que teria sido muito mais relevante se tivesse sido com outro X-Men ou algum outro herói não mutante. Sem falar que o Anole e o Graymalkin, dois alunos gays da antiga Escola Xavier, estão escanteados há pelo menos uns 2 anos, o mesmo podemos dizer do Hulkling e do Wiccan, se bem que nesse caso acho que é mais porque os Jovens Vingadores estão desde a Guerra Civil sendo coadjuvantes de crossovers.

    Os quadrinhos ainda têm que evoluir muito em questão de diversidade, mas tem que começar de algum canto, então que o Estrela Polar seja muito feliz em seu casamento.

  • Thiago

    Muito bacana o artigo, mas eu acho que as coisas estão mudando. A DC está anunciando que um grande figurão do universo pós-reboot deles vai sair do armário em breve e tem esse casamento no meio dos X-Men. A tendência é só melhorar.

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